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Nas
trilhas de JJ Gallahade:
leitura
crítica da
obra
poética de Jayro Luna
Organizado por Eliana Nagamini - São Paulo, Vila Rica, 2006.

Apresentação: Jayro Luna
ou Jayro Jhade Gallahade: o
poeta e a
máscara
Por: Eliana Nagamini
Os
poemas de J.J. Gallahade,
pseudônimo de Jayro Luna, contém uma
diversidade na
composição da
forma e do
conteúdo, do
soneto à
poesia
concreta, do
esoterismo à
cibernética. Intertextualidade e
confronto
com o
mundo
contemporâneo
são
marcas
presentes
em
poemas
como “O
Exílio da
Canção” (Infernália Tropicalis). Há
também muitas
referências daquela
geração
que viveu
sob o
prisma do rock, da
contracultura, da
rebeldia, do desbunde,
como
em “Rock-poesia” (Infernália Tropicalis).
Influenciado
pelo
movimento Tropicalista,
pelo
mundo do rock, os
poemas de Jairo revelam
sua
busca
pela
natureza da
produção
poética e se transforma, no
presente,
em
poesia
ainda
marginal.
Jayro Luna iniciou
corajosamente a publicação de
seus
poemas,
nos
idos dos
anos 80,
em plaquettes, peregrinando
com
eles
debaixo do
braço
entre
editores e
pessoas
ligadas ao
universo
literário.
Nem
sempre encontrou uma
resposta
positiva;
muitos
elogios,
mas
sem a esperada publicação.
Assim
poucos conhecem a
obra
poética de Jayro Luna.
O
pseudônimo J.J.Gallahade revela
muito
mais
sua
busca
por uma
identidade
poética do
que
para escondê-la.
Não é à
toa
que na
composição do
próprio
pseudônimo contenha o
nome do
poeta: Jayro
que se funde
com Jhade Gallahade, situando o
poeta num
mundo
fictício
em
que está
presente/ausente,
que o
lança
para
um
vir a
ser, na
tentativa de
encontrar o
seu
espaço
como
poeta. No
pseudônimo está o
desejo
expresso
por
um
lugar predestinado,
como o
cavaleiro da Távola
Redonda; o
cavaleiro, no
entanto, é
um
cavaleiro
errante,
um
poeta
marginal.
Segundo Glauco Mattoso, “do
ponto de
vista
literário,
marginal seria
toda
poesia
que se afasta dos
modelos reconhecidos
pelos
críticos e
professores,
pelo
público
leitor e,
conseqüentemente,
pelos
editores”.
A geração-mimeógrafo
só encontrou
seu
público –
pequeno -
por
ser
itinerante. O
conceito de
marginal aplicado
aqui
não se restringe, no
entanto,
somente à
sua
circulação,
mas
principalmente
pela
transgressão aos
modelos tradicionais.
Em JJ Gallahade essa
transgressão ultrapassa a
mera
negação desses
modelos,
pois
eles fornecem
elementos
estéticos na
composição de
seus
poemas,
ou seja, o
poeta assume a
liberdade de
expressão, de
criação
para
compor
sonetos
com uma
temática
incomum
para uma
forma
clássica (“Cavaleiro
Menestrel
Errante”,
em Bagg’Ave’).
Mesmo sendo
marginal, o
que
já implica
em
dificuldades na publicação de
seus
poemas, o
poeta
quer
ser lido.
Aliás, o
fenômeno
literário
só se
efetiva na
existência da
trilogia
autor/obra/leitor.
Porém
como afirma Mattoso, citando Carlos Alberto
Messeder
Pereira,
autor da
tese
Retrato de
época:
poesia
marginal
anos 70 (Funarte/1981), a
autonomia do
poeta
marginal contribui
negativamente
para
seu
ingresso no
mercado
editorial, tornando-se
cada
mais
distante a
conquista
por
um
prestígio
literário. No
contexto dos
anos 70, o
poeta vivia
um “grande
dilema”,
isto é, “de
um
lado existe o
obstáculo de
submeter
seu
trabalho a
intermediários (editores,
conselhos
consultivos,
comissões julgadoras),
que exercerão
sobre o
mesmo
algum
tipo de
seleção
ou
censura; de
outro, a
necessidade de
atingir
um
público
cada
vez
mais
amplo
para se
tornar
um
nome
popular e,
por
que
não, badalado.
Tal
contradição
não fica resolvida
pela “opção”
marginal. Ao
contrário,
mesmo
entre os
poetas
marginais
por “convicção”
prevalece o
mito da
consagração e da
fama, a
luta
pelo
status cultural,
ainda
que o
alcance desse
status fique restrito a
um
público
muito reduzido”.
Esse
paradoxo
entre a
marginalidade e a
consagração
também ocorre
com Jayro Luna. Das
cartas fornecidas
pelo
poeta aos
textos
acadêmicos, acompanhamos a
trajetória da
produção
literária do
poeta e
sua
tentativa
em
estabelecer
um
diálogo
com o
meio
editorial,
literário e
acadêmico.
Assim, esta
coletânea
sobre a
produção
poética de JJ Gallahade apresenta
textos de
caráter
informal –
parte da
correspondência recebida
pelo
poeta – , de
caráter
público –
como
artigos de
jornais e revistas- e de
caráter
acadêmico –
como a
dissertação de
mestrado e
tese de
doutorado.
A
primeira
parte
conta
com uma
série de
cartas
enviada
para o
poeta,
cujo
diálogo
nos permite
compreender a
trajetória de Jayro na
conquista de
um
espaço
não
apenas no
meio
editorial
mas
também
entre
aqueles envolvido
com a
Literatura.
Vale
destacar
que a
reunião dessas
cartas
não tem
como
objetivo
apenas o
resgate da
luta do
poeta
para
ser reconhecido.Trata-se, numa
esfera
mais
ampla, de considerarmos o
impacto de algumas
mensagens contidas nelas,
principalmente tendo
em
vista o
seu
interlocutor.
Pois, de
acordo
com Valverde, “a
carta contém uma possibilidade
intrínseca de
provocar modificações no
destinatário, o
poder de
influenciar
idéias,
atitudes, de
enriquecer e
permitir
reflexão”.
Tanto o
conteúdo
como o
grau de
intimidade
entre o
emissor e o
receptor
são
fatores
importantes na
reconstituição do
perfil
artístico de JJ Gallahade,
embora
esse
não tenha sido o
critério seguido
para a
organização das
cartas,
pois
elas foram organizadas a
partir de
dados cronológicos
para
situar o
leitor no
processo de
formação do
poeta: do
jovem
estudante de
Letras da PUC ao
professor de
Literatura
em
instituições de
nível
superior.
O
leitor notará
que a informalidade
ou
não da
linguagem utilizada nas
cartas revela o
grau de
aproximação
ou
distanciamento do
interlocutor.
Fator
decisivo no
impacto da
mensagem apresentada
pois, de
modo
geral,
elas se constituem cartas-comentário, na
medida
em
que o
conteúdo apresenta apreciações
críticas
sobre
algum
poema
ou plaquette
enviado
por Jayro. As
cartas trazem à
luz a
insistência do
poeta
para
publicar
seus
poemas e
dialogar
com outras personalidades
ligadas ao
meio
literário.
Entre
elas constam
nomes
como Paulo Leminski, Caio Graco, Haroldo de
Campos,
todos
escritores reconhecidos
pelo
meio artístico-literário.
Outros
nomes de
poetas,
com
propostas literárias
muito próximas de Jayro,
como Antônio Carlos Lucena,
conhecido
como Touchê, Álvaro de Sá,
Rubervan do Nascimento
. E
ainda de
pessoas
ligadas ao
meio
acadêmico
como Uilcon
Pereira,
Philadelpho Menezes,
Há
alguns
comentários
precisos
sobre os
poemas de Bagg’Ave
como os de Antônio Carlos Lucena,
em
que há
destaque
para a
composição da
estrutura dos
poemas e do
caráter
underground,
elementos
que valorizam a
produção
poética de Jayro.
Outros
comentários
como os de Paulo Leminski
são incentivadores
por
destacar a
importância das
escolhas vocabulares,
mas na
opinião do
escritor revelam a
imaturidade do
poeta
que
precisa
construir
seu
caminho (“Espero
que os
caminhos da
poesia sejam
para
você uma
espécie de
pé na
estrada
com
direito a
definição de
itinerário”).
Talvez a carta-comentário de Caio Graco seja a
que
mais tenha causado
impacto no
poeta
pela recusa de
seus
poemas
para publicação e
pela
ambigüidade: “talvez
eu pudesse
propor
estudar a publicação de
seus
poemas
para
outro
ano,
mas
para
ser
franco,
embora tenha gostado de
sua
poesia e
entendido o
espírito de
contracultura
que a domina,
ela
me parece
muito comprometida”.
Apenas a possibilidade de publicação dos
poemas
já seria uma
conquista,
porém essa possibilidade é anulada
posteriormente
com
termo “comprometida”,
pois
não há o
complemento
necessário
para
que a
idéia seja apresentada na
sua
totalidade. O
próprio Jayro vai
levantar algumas
conjecturas a
este
respeito
em
seu
livro Participação e
forma. Algumas
reflexões
sobre a
função
social da
poesia, publicado
pela
Épsilon Volantis,2001.
O
comentário de Phipladelpho Menezes
acerca do
poema “Poema semiótico
para Ziggy”
também apresenta uma
observação
que
em
princípio pode
parecer
negativo (“o
seu
poema tem
um
quê de
improvisação e
desarranjo”)
mas
que corresponde
com a
linha
poética adotada
por Jayro,
isto é, o do
experimento
visual apoiado na
liberdade de
criação, na “irreverência”, no “desbunde”,
com o
espírito da
poesia
marginal.
Em todas as
cartas, o
leitor encontrará
como
traço
semelhante
indícios da
preocupação do
poeta JJ Gallahade
ou Jayro Luna
com o
processo de
produção
literária,
tanto
em
relação à
forma
quanto ao
conteúdo, e
sua
proposta na
construção do
conceito de “metamodernidade”.
As cartas-artigo de
jornal
são assinadas
por Zanoto,
cujo
diálogo se divide
entre a
correspondência
enviada
por Jayro e as
respostas
ou
comentários publicados no
jornal
Correio do
Sul (Varginha – MG), na
década de 80.
Elas trazem
mais uma
face do
poeta Jayro,
com
sua
poesia
marginal, voltada
para a
contracultura, o rock e
com
referências ao
Mimeógrafo Generation, editado
por Jayro.
Aqui o
leitor
deixa de
ser
somente o
poeta,
visto
que a publicação num
jornal propaga a
existência de
um JJGallhade e de
seus
poemas.
Na
segunda
parte da
coletânea, a publicação de
comentários
sobre os
poemas de Jayro
em
artigo de
revistas
ou de
jornais representam a
conquista de
um
espaço,
ainda
que
pequeno. Jayro Luna
deixa de
ser
um
leitor
solitário,
como nas
cartas,
para
compartilhar
com
outros
leitores o
comentário
sobre
seus
poemas,
pois o
poeta continua enviando
seus plaquettes, na
década de 80 e
já
em
livro, na
década de 90. Os
comentários,
nem
sempre
tão
breves, se compõem a
partir de pressupostos
teóricos
mais
precisos.
Douglas de Almeida, da
Revista
Sem
Perfil, ressalta
importância da
diversidade na
composição
poética de Jayro e destaca a
perfeição de “sonetos
que matariam Petrarca de
inveja”,
mas
que
surpreendentemente trazem o rock
como
temática.
Tal
característica é “fruto de
pesquisas e
trabalho”,
que
só seria
possível,
como observa Antônio Miranda,
em
resenha
eletrônica,
porque Jayro “deve
ter lido
todos os
livros de
seu
sebo
fino, de
suas
estantes iluminadas. Tragou-os
todos numa
cuia de
açaí
como
néctar
puro,
como
pó de
guaraná!”.
Para
quem
não sabe Jayro Luna teve
um
sebo
entre 1992 e 1997; chamava-se
Sebo
Paulista e continha
um
acervo de 50.000
livros,
além de
partituras e
discos.
Nos
artigos, o
leitor encontrará
um
olhar
um
pouco
mais
analítico e
que revelam a
busca de Jayro
por uma
teoria
poética do metamodernismo. É o
caminho
para o
meio
acadêmico.
As anotações de Jayro
durante a
realização do
curso “Redação e
poesia”, ministrada
pelo Prof. Dr. Carlos Felipe Moisés, na FIG (Faculdades
Integradas de Guarulhos), abrem a
terceira
parte desta
coletânea e marcam a
entrada dos
poemas de Jayro no
meio
acadêmico,
em
que a
questão da metamodernidade foi debatida. O “metamoderno”,
para Jayro, é “uma
estratégia,
mais do
que
um
conceito de
escola”.
Jayro Luna
chega ao
meio
acadêmico
quando
seus
poemas passam a
constituir
objeto de
estudo
em
trabalhos monográficos,
dissertação de
mestrado e
tese de
doutorado,
cujo aporte
teórico está voltado
para
estudo da
Semiótica,
devido ao
diálogo
entre a
linguagem
visual e
verbal
que encontramos
nos
poemas.
Mesmo no
meio
acadêmico, o
poeta
não deixou de
ser
underground, beat,
integrante da
geração
mimeógrafo...um
poeta
marginal!
JJ Gallahade é o “cavaleiro
menestrel
errante”, “com
sua
espada
elétrica”, de “jeans
azul”,
que
luta “contra o
rei e
sua
filha”, tem a
experiência de
um
leitor apaixonado
pela
linguagem
poética. JJ Gallahade é
tão misterioso
quanto
seu “Bagg’Ave”,
embebido no “Ópium”, viajando no “Infernalis Tropicalis”...é
um
verdadeiro “Florilégio de
Alfarrábio”.
VALVERDE, Maria de Fátima. “A
carta,
um
gênero ficcional
ou
funcional?”. In:
Anais do IV
Congresso
Internacional da
Associação Portuguesa de
Literatura Comparada,Universidade
de Évora (www.eventos.uevora.pt/comparada/VolumeI/A%20CARTA_UM%20GENERO%20FICCIONAL%20OU%20FUNCIONAL.pdf
-
acesso
em
9 / 8/2006)
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