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Título:
Memória e
metalinguagem nas
crônicas de Rubem Braga
Autor: Eliana Nagamini
Uma
questão de
estilo
“Chegou
meu
dia.
Todo
cronista tem
seu
dia
em
que,
não
tendo
nada a
escrever,
fala
da
falta
de
assunto.Chegou
meu
dia.
Que
bela
tarde
para
não
se
escrever!”
.
Assim
começa
a
crônica
Ao
respeitável
público
(apud
FRANCHETTI e PECORA, 1980: 13), de Rubem Braga. O cronista apresenta uma
visão
crítica
sobre
a
crônica,
gênero
considerado
menor
por
não
trazer
nada
de
interesse
prático
para
o
cotidiano
como
as
notícias
veiculadas
pelo
jornal
(“O
jornal
é
grande,
senhorita,
é
imenso,
cavalheiro,
tem
crimes, tem
esporte,
tem
política, tem
cinema,
tem uma
infinidade
de
coisas”),
e
por
não
ter,
em
tese,
a
intenção
literária.
Ou
seja, está
longe
de se
caracterizar
como
documento
informativo, e
não
constrói
ficção
como
os
textos
literários.
As
ofensas lançadas
contra
o
leitor
têm a
intenção
de
provocar
uma
mudança
no
status
desse
elemento
fundamental
para
a
sobrevivência
da
crônica,
pois
o
leitor
é
aquele
que
acompanha o cronista diariamente,
em
que
o
jogo
de
sedução
depende
muito
do
trabalho
de
linguagem
realizado
pelo cronista. O
que
nos
causa
estranhamento, nesta
crônica,
é o
fato de o
leitor
ser
tratado
com
desprezo.
Ironicamente, Rubem Braga revê a
posição
do
leitor
e a
importância
da
interação
com
o
público.
Com
marcas
temporais
muito
bem
definidas,
fevereiro
de 1934, na
ocasião
do
Carnaval,
Rubem Braga discute o
universo
da
crônica
a
partir
do
próprio
carnaval:
o
mundo
às
avessas
no
sentido
atribuído
por
Bakthin (1999), de
transgressão
à
ordem.
Para
Bakhtin, “o
carnaval
era
o
triunfo
de uma
espécie
de
liberação
temporária
da
verdade
dominante
e do
regime
vigente, de
abolição
provisória
de todas as
relações
hierárquicas,
privilégios,
regras
e
tabus”(1999:
8),
que
acabava
por
se
constituir
um
“reino
utópico
da universalidade,
liberdade,
igualdade
e
abundância”
(1999: 6). A
forma
carnavalesca
aproximava-se do
espetáculo,
cuja
vivência
se realizava na
própria
vida
cotidiana,
ainda
que
provisória,
em
que
se rompia
com
o
espaço
convencional
para
viver-se o
espaço
da
liberdade.
O
título Ao
respeitável
público
já
prepara
o
público
para
o
espetáculo
que
irá
presenciar,
criando
novas
relações
entre
a
platéia
e o cronista. No
espetáculo
carnavalesco
não
há
distinção
entre
espectadores
e
atores,
também
os
limites
do
palco
ganham
novos
contornos.
Nesse
espetáculo, Rubem Braga
cria
outra
ordem
na
relação
autor/leitor,
tornando a
figura
do
leitor
ambígua,
pois
ao
mesmo
tempo
em
que
é ridicularizado, é
também
destacado
visto
que
a
crônica
é dirigida
para
esse
leitor;
ocorre, nesse
sentido,
um
coroamento e
um
descoroamento do
leitor.
O cronista ridiculariza o
leitor
utilizando
adjetivos
desqualificadores,
como “teimosa”,
“cabeçudo”,
“irritantes”, “aborrecidas”,
para
revelar
um
sentimento
de
desprezo
(“Fiquem sabendo
que
eu
secretamente
os odeio a
todos”,
“porque
vocês
não
me
agradam;
porque
eu
os detesto”, “eu
faço
votos
para
que
vocês
todos
amanhecem
amanhã
atacados
de
febre
amarela
ou
de
tifo
exantemático”). O descoroamento do
leitor
provoca o
riso
festivo,
carnavalesco,
isto
é, da
libertação
do
leitor
por
não
ter
a “obrigação”
de
ler
a
crônica,
mas
principalmente
do cronista
por
não
ter
a “obrigação”
de
seduzir
o
leitor
e de se
render ao
leitor
do
jornal.
O
caráter metalingüístico
dessa
crônica
se configura no afastamento das
características
originais
desse
gênero,
relacionado na
sua
origem
apenas
aos relatos
históricos,
para
alçar
vôos
maiores
no
universo
literário.
Essa
postura
indica a
própria
trajetória
das
concepções
sobre
o
gênero
nos
estudos
literários,
como
podemos
destacar
em
A
criação
Literária,
de Massaud Moisés:
“Do
grego
Chonokós,
relativo
a
tempo
(chrónos),
pelo
latim
chronica, o
vocábulo
‘crônica’
designava, no
início
da
era
cristã, uma
lista
ou
relação
de
acontecimentos
ordenados
segundo
a
marcha
do
tempo,
isto
é,
em
seqüência
cronológica. Situada
entre
os
anais
e a
história,
limitava-se a
registrar
os
eventos
sem
aprofundar-lhes as
causas
ou
tentar
interpretá-los (...) A
partir
de
Renascença,
termo
‘crônica’
cedeu
vez
a ‘história’,
finalizando,
por
conseguinte,
o
seu
milenar
sincretismo.
(...) Na
acepção
moderna,
porém
não
a de
crônica
mundana
(que
se confunde
com
reportagem de
ocorrências
sociais
de
alta
roda),
a
crônica
entrou a
ser
empregada
no
século
XIX:
liberto de
sua
conotação
historicista, o
vocábulo
passou a
revestir
sentindo
estritamente
literário.”
(1998: 101, 102)
E
também
em
Teoria do
texto,
de Salvatore D’Onofre:
“Do
grego
Krónos,
que
significa “tempo”,
a
crônica
é o
registro
de
acontecimento
num
tempo
e num
espaço
determinados.
Em
primeiro
lugar,
é
preciso
distinguir
a
crônica
científica
da
crônica
literária.
No
primeiro
caso
ela
não
pode
ser
considerada uma
obra
de
arte.
Pertencem a essa
categoria
a
crônica
histórica,
que
é uma
lista de
fatos
arranjados
conforme
uma
ordem
linear
do
tempo;
a
crônica
policial,
que
registra
a
ocorrência
de
atos
criminosos;
a
crônica
social,
que
põe
em
evidência
a
vida
das
pessoas
ilustres;
a
crônica
esportiva,
que
comenta as
disputas
de
tênis,
de
futebol,
de corridas automobilísticas, etc.; a
crônica
de
arte,
que
apresenta a
crítica
de
eventos
culturais (cinema,
pintura,
música,
teatro,
etc.).
Tais
cronistas,
geralmente
formados
por
faculdades
de
história,
de jornalismo
ou
de
comunicação,
são
profissionais
que
possuem
um
saber
específico
e usam uma
metodologia
científica
em
seu
trabalho
cotidiano.
(2004: 123)
Ainda
segundo
Salvatore D’Onofre, a
produção
da
crônica
está relacionada à intencionalidade
artística,
distanciando-se do
seu
caráter
jornalístico
principalmente
pelo
fato
de serem
escritos
por
poetas
ou
escritores:
Diferentemente,
a
crônica
literária
é produzida
por
poetas
e ficcionistas
que,
embora
possam apoiar-se
em
fatos
acontecidos, transformam a
realidade
do
dia-a-dia
pela
força
criadora da
fantasia.
Daí decorre
que
suas
crônicas
são
ou
poemas
em
prosa
ou
pequenos
contos,
dependendo do
pendor
do
autor
para
o
gênero
lírico
ou
narrativo. De
um
modo
geral,
a
crônica
pode
ser
considerada
como
a
mais
curta
forma
de
narrativa
literária”
(2004: 123)
Como podemos
notar,
historicamente, a
crônica
se apresenta
como
um
registro
histórico,
e
depois
como
relato do circunstancial,
ou
seja, do
cotidiano
levado
a
público,
organizado de
forma
linear
e
temporal.
Na
sua
origem,
a
crônica
relaciona-se
com
o
presente
e
enquanto
registro
resgata o
passado,
ao
resgatar
cenas
cotidianas. A gratuidade
temática
acaba determinando
sua
existência
transitória,
na
concepção
moderna,
por
estar
vinculada ao
jornal.
É o
tempo
que
devora os
acontecimentos.
Na
mitologia
grega,
segundo
Brandão (1986), Cronos engolia os
filhos
que
teve
com Réia
para
não
ser
destronado
por
eles,
conforme
as
previsões
de Geia e
Urano.
Somente
a
Memória,
representada
por
Mnenosine (MÉRNARD, 1997),
que
gerou as
nove
Musas
para
lembrar
os
feitos
dos
heróis,
pode
restituir os
acontecimentos
quando
estes
são
relatados
como
poesia.
Segundo
Lê
Goff (1984),
para os
gregos,
a
linguagem
poética
relaciona-se
com
a
memória;
assim,
a
fonte
da
memória
é a
fonte
de
imortalidade.
As
crônicas de Rubem
Braga vencem o
tempo
e ganham
imortalidade
por
seu
trabalho
de
linguagem.
O
cotidiano
é
construído
através
de
um
olhar
poético,
pois a
memória
individual
processa
um
mecanismo
de releitura dos
acontecimentos
marcado
pela
subjetividade do
autor.
O cronista transforma a
realidade
em
fantasia,
em
criação.
Na
passagem da
crônica
histórica
para
a
literária,
permanece a
temática
do
cotidiano,
a
diferença
é a
grande
transformação
que
ocorre no
trabalho
da
linguagem.
O
processo
de
elaboração
da
crônica
aproxima-se do
processo
de
criação
literária,
ou
seja, do
uso
peculiar
da
palavra,
em
seu
potencial
simbólico e polissêmico. Destaque-se, a
partir
dessas
observações,
que
nem
toda
crônica
adquire o
status
de
literária,
pois
depende da
maneira
como
o cronista
torna
a
visão
do
mundo
cotidiano
em
um
mundo
ficcional;
além
disso, o
sentido
atribuído ao
tempo
e aos
acontecimentos
não
é
neutro,
pois
revela uma
determinada
ideologia
na
construção
do
discurso.
É
preciso
considerar
que
o
gênero
teve
seu
desenvolvimento
no
meio
jornalístico,
a
partir
do
século
XIX, e algumas de
suas
características
estão sujeitas às
características
do
próprio
jornal,
ou
seja, a efemeridade, a
diversidade
de
leitores
apressados,
as
relações
com
a
lógica
do
consumo,
o
limite
de
espaço,
o
pouco
tempo
de
elaboração,
e
ainda
ter
de
operar
com
uma
espécie
de
censura,
pois
segundo
Jorge de Sá, “a
ideologia
do
veículo
corresponde ao
interesse
dos
seus
consumidores,
direcionados
pelos
proprietários
do
periódico
e/ou
pelos
editores-chefes de
redação”
(2002: 8).
De
que
maneira,
então,
ela
deixa
de
ser
uma
crônica
jornalística
para
se
tornar
literária?
Quando
ela
deixa
de
ser
um
mero
relato
para
construir
um
universo
mágico
e
ultrapassar
o
tempo
presente?
É
justamente
o
uso
que
o cronista faz da
palavra,
na
ênfase
da
função
poética
da
linguagem.
Rubem Braga ultrapassa os
limites
do
jornal
ao
tratar
de
temas
corriqueiros
com
um
olhar
crítico,
transformando o relato
casual
em
um
trabalho
de
linguagem
através
da
palavra,
cujo
significado
simbólico permite
que
o
texto
seja considerado
literário,
e de
acordo
com
Manuel
Bandeira
(apud
FRANCHETTI e PECORA), “Braga na
crônica
é
sempre
bom,
e
quando
não
tem
assunto
então
é
que
tripula no
melhor:
mestre
no
puxa-puxa,
espreme no
palmo
da
coluna
certa
inefável
poesia
que
é
só
dele” (1980: 85), e desse
modo,
eleva
sua
crônica
a uma
linguagem
poética.
É
por
isso
que
as
crônicas
de Rubem Braga perdem o
caráter
efêmero
atribuído ao
gênero
e ganham a
posteridade,
a
permanência,
principalmente
pela
importância
dada
à
palavra.
Mas
aquela
palavra
capaz
de
provocar
um
efeito
no
leitor,
capaz
de
transformar
a
vida
cotidiana.
A
palavra
que
constrói
um
sentido
para
a
própria
vida.
Na
crônica A
palavra
(BRAGA, 2004: 183),
também
de
caráter
metalingüístico, o cronista
trata
do
ofício
de “viver
em
voz
alta”
e dos
efeitos
provocados
pela
palavra,
que
tanto
pode
resultar
em
mágoa
ou
em
felicidade.
A
analogia
é
feita
a
partir
da
narrativa
de
um
episódio
casual
sobre
um
canário
que
não
queria
cantar,
mas
que
ao
ouvir
uma
frase
musical de Beethoven “começou a
cantar”.
O
som
da
melodia,
pela
sua
natureza
artística,
teria
permitido
ao
canário
encontrar
um
significado
em
seu
próprio
canto.
Também
a
palavra
do cronista
poderia
despertar
nas
pessoas
o
mesmo
encantamento
do
canário.
Não é
dito
qual
é essa
palavra
(“Alguma
coisa
que
eu
disse
distraído
–
talvez
palavras
de
algum
poeta
antigo”),
apenas
destaca-se
que
ela
tem
uma
força
capaz
de “despertar
melodias
esquecidas
dentro
da
alma
de
alguém”.
A
palavra
mágica
é aquela
que
não
só
abre as
portas
da
imaginação,
mas
principalmente
reconstitui as
lembranças
de
um
passado
inocente
cheio
de
sonho
e
fantasia.
Nesse
sentido,
a intertextualidade
com
os
contos
de
fada
(“Foi
como
se a
gente soubesse
que
de
repente,
num
reino
muito
distante,
uma princesa
muito
triste
tivesse sorrido”) é
um
aspecto
fundamental
para
resgatar,
a
partir
da
memória,
o
mundo
encantado das
histórias
ouvidas na
infância.
Se de
um
lado
o
alcance
dessa
palavra
ultrapassa a
referência
meramente
individual,
de
outro,
revela uma
preocupação
com
a
realidade
social
(“E
isso
fizesse
bem ao
coração
do
povo;
iluminasse
um
pouco
as
suas
pobres
choupanas
e as
suas remotas
esperanças”),
deixando
seu
caráter
particular
para
tornar-se
universal.
Qual é
então
essa
palavra
mágica?
A idealização dessa
palavra
está
presente
na
crônica
Meu
ideal seria
escrever... (BRAGA,
2009).
Já
no
título
temos a
presença
da subjetividade
expresso
no
pronome
“meu”
para
apontar
uma
postura
muito
particular
quanto
ao
ato
de
escrever,
como
um
desejo
do cronista colocado no
plano
da possibilidade, na
medida
em
que
o
tempo
verbal,
futuro
do
pretérito
simples
do
indicativo,
projeta
essa
escritura
para
um
futuro
com
relação
a
um
fato
passado.
Além
disso, as
reticências
acrescentam uma
lacuna
quanto
ao
assunto
e ao
próprio
gênero,
enfatizando o
ato
de
escrever.
Todos os
elementos
da
crônica
Meu
ideal seria
escrever... apontam
para
o
desejo
do cronista
em
construir
uma
história
que
modifique a
vida
das
pessoas,
que
de alguma
forma provoque
um
efeito
no
leitor,
uma transformação: “Meu
ideal
seria
escrever
uma
história
tão
engraçada
que
aquela
moça
que
está
doente
naquela
casa
cinzenta
quando
lesse
minha
história
no
jornal
risse, risse
tanto
que
chegasse a
chorar”
As
palavras
compõem
dois
estados
subjetivos
do
espírito:
um
da
tristeza
(“doente”,
“cinzenta”) e
outro
da
alegria
(“engraçada”,
“risse”),
concentrados
na
ambigüidade
da
palavra
“chorar”,
pois
o
choro
não
é de
dor
nem
de
tristeza,
mas
de
alegria
e o
riso,
nesse
caso,
é o
riso
que
liberta
a
moça.
Os
estudos
de Propp tratam de uma
diversidade
de
risos
e
um
deles é o
que
ele
chamou de “riso
alegre”,
isto
é,
aquele
que
revela
satisfação,
que
não
é provocado
pela
zombaria
ou
o
engano.
O
riso
alegre
não
tem uma
origem
precisa,
pois
“pode originar-se dos
pretextos
mais
insignificantes”
(1992: 162) , da
vida
cotidiana;
é
um
riso
que
“elimina
qualquer
emoção
negativa
e a
torna
impossível,
ele
apaga a
cólera
e a
ira,
vence a perturbação e eleva as
forças
vitais,
o
desejo
de
viver
e de
tomar
parte
na
vida”
(1992: 163).
Assim,
essa
história
– “insignificante”
- é caracterizada
pelo
adjetivo
“engraçada”
que,
por
sua
vez,
é intensificado
pelo
advérbio
“tão”,
como
indicativo
da
força
desse
riso,
pois
ele
anula as
tensões
e permite a
satisfação,
a
alegria.
A
ausência
da
identidade
da
moça
e o
distanciamento
marcado
pelo
pronome
demonstrativo
universalizam a
representação
da
moça,
cujo
momento
presente
–
negativo
– pode
sofrer
uma transformação,
expresso
pelos
verbos
no
subjuntivo
(“lesse”, “risse”, “chegasse”).
A
história
rompe
com
a
prisão
do
tempo
e do
espaço
do
gênero.
Sai do
espaço
da
casa
da
moça
e
chega
ao “casal
mal-humorado”
resgatando o
sentimento
amoroso
que
os uniu e
que
o
cotidiano
muitas
vezes
se encarrega de
apagar
da
memória.
Reconstituem, desse
modo,
as
lembranças
perdidas dos
momentos
de
ternura
que
os unira (“se lembrasse do
alegre
tempo
de
namoro,
e reencontrassem
os
dois
a
alegria
perdida de estarem
juntos”).
O
riso
libertador
os afasta do
tédio
cotidiano
para
dar
novo
significado
à
convivência.
O
ambiente
conjugal abre as
portas
para
a
história
atingir
as
ruas,
isto
é, o
espaço
público
(“Que
nas
cadeias,
nos
hospitais,
em
todas as
salas
de
espera
a
minha
história
chegasse”),
mas
sempre
aquele
caracterizado
pela
dor
e
pela
tristeza.
Por
isso,
ganha
maior
intensidade
com
o
advérbio
“tão”,
exaltando
suas
qualidades:
“fascinante”,
“irresistível”,
“colorida” e “pura”.
A
tonalidade
do
ambiente
construído
pela
“casa
cinzenta” perde
sua
força
para
dar
lugar
ao colorido, à
vibração
que
chega
à
antítese
das “lágrimas
de
alegria”
para
limpar
o
coração,
ou
seja, a
purificação
da
alma,
a
libertação.
A universalização da
história
ultrapassa as
fronteiras
das
línguas,
das
diferenças
étnicas, surpreendendo
até
um
“chinês
muito
pobre,
muito
sábio
e
muito
velho”,
ou
seja, a
credibilidade
da
história
seria
incontestável
devido
ao
comentário
de
alguém
que
tem
sua
origem
numa
cultura
milenar,
considerado
sábio
e
por
ter
vivido
o
suficiente
para
adquirir
parâmetros
de comparação
com
essa
história
e,
portanto,
ela
de
fato
seria “divina”,
saindo do
plano
terreno
e ganhando uma
força
transcendental.
A
história
tal
como
a
melodia
de Bethoven
ouvida
pelo
canário
fora
inspirada num
momento
circunstancial da
vida,
acionada
pela
visão
da “tristeza
daquela
moça
que
está
doente,
que
sempre
está
doente
e
sempre
está de
luto
e
sozinha
naquela
pequena
casa
cinzenta”.
Não
sabemos
exatamente
qual
é o
conteúdo
dessa
história,
mas
sabemos o
seu
efeito:
a
alegria
da
descoberta
do
mundo
encantado, do
sonhar
acordado.
Embora
a
narrativa
esteja no
plano
da possibilidade de
realização
do
desejo,
esse
desejo
se
efetiva,
na
medida
em
que
o
texto
provoca uma
reflexão
sobre
a
própria
vida
ao
dar
um
novo
sentido
para
o
cotidiano.
Em
O
padeiro
(BRAGA, 2004: 43), Braga aproxima o
trabalho
do cronista
com
o do
padeiro.
O
pão
e
crônica
são
produtos
que
fazem
parte
do
cotidiano.
O
fazer
desses
profissionais
é
tão
corriqueiro
que
passa
despercebido,
quase
sem
importância.
É
assim
que
o
padeiro
descobre
sua
identidade:
“Explicou
que
aprendera de
ouvido.
Muitas
vezes
lhe
acontecera
bater
a
campainha
de uma
casa
e
ser
atendido
por
uma
empregada
ou
outra
pessoa
qualquer,
e
ouvir
uma
voz
que
vinha
lá
de
dentro
perguntando
quem
era;
e
ouvir
a
pessoa
que
o atendera
dizer
para
dentro:
“não
é
ninguém,
não,
senhora,
é o
padeiro”.
Assim
ficara sabendo
que
não
era
ninguém...”.
O
termo
que
estabelece a similaridade
entre
o cronista e o
padeiro
é “ninguém”,
isto
é, uma
alguém
menor
no
cotidiano,
mas
significativo
na
rotina
diária.
A
rotina
do cronista e do
padeiro
também
são
semelhantes:
“Naquele
tempo
eu
também,
como
os
padeiros,
fazia o
trabalho
noturno.
Era
pela
madrugada
que
deixava a
redação
de
jornal,
quase
sempre
depois
de uma
passagem
pela
oficina
– e muitas
vezes
saía
já
levando na
mão
um
dos
primeiros
exemplares
rodados, o
jornal
ainda
quentinho da
máquina,
como
pão
saído
do
forno”.
O
caráter
dos
jornais,
com
ênfase
na
notícia,
nos
fatos
reais,
coloca a
crônica
num
espaço
reduzido e
sem
o
destaque
das
grandes
manchetes.
De
acordo
com
Sá,
“os
próprios
jornais
conferem ao cronista a
missão
de
colocar
a
vida
no
exíguo
espaço
dessa
narrativa
curta,
que
corre o
risco
de
ser
sufocada pelas
grande
manchetes,
ou
confundir-se
com
o
contexto
da
página
em
que
ela
é publicada” (2002: 18).
A
crônica
ganha
destaque
quando
é publicada
em
livro
que,
ao distanciar-se de
seu
meio
de
origem,
conquista
sua
permanência.
A
memória
da
vida
cotidiana
Encontramos o
sentido
de
memória
no
tema
do
guarda-chuva,
na
crônica
Coisas
antigas
(BRAGA, 2004: 75). A
permanência
desse
objeto,
na
sua
forma
e
função,
serve de
analogia
para
suas
reminiscências
da
infância.
O
objeto
tão
singular
como
o
guarda-chuva
constrói
um
novo
sentido
às
lembranças
do cronista. A
imprecisão
do
vocábulo
“coisas”
atribui
um
caráter
universal
ao
assunto
a
ser
tratado,
além
de
registrar
as
lembranças
do
passado
através
do
vocábulo
“antigas”.
A
caracterização
do
objeto
passa
pela
metáfora
da “barraca
ambulante”
para
ganhar
vida:
“abandonou-me no
primeiro
bar
em
que
entramos;
não
era
coisa
para
mim”.
Com
a personificação do
objeto,
ocorre uma
troca
nas
relações
entre
objeto
e
usuário
. O
guarda-chuva
deixa
seu
dono
quando
este
não
é
aquele
fiel,
quando
seu
dono
é
um
“freguês
vulgar
e
ocasional”,
então
“ele
se aproveita da primeira
distração
para
sumir”.
O
usuário
passa,
dessa
maneira,
a
um
mero
elemento
passivo
diante
do
objeto.
A
descrição
do
guarda-chuva,
lembrado
somente
naqueles
dias
de
chuva,
ou
seja,
ocasionalmente,
mostram as poucas modificações sofridas
por
ele
que,
apesar
do
avanço
tecnológico,
permanece “de
junco
fino
ou
pinho
vulgar,
de
algodão
ou
de
seda
animal
pobre
ou
rico”.
A
idéia
da
permanência
é
muito
importante
na
medida
em
que
se estabelece uma
relação
paralela
com
as
reminiscências
do cronista.
A
visão
do
objeto
gera no cronista “um
estranho
carinho”,
cuja
origem
o cronista se propõe a
desvendar.
O
objeto
se relaciona à
infância
que
o
leva
a
relembrar
a
figura
paterna:
“Não
sei há
quantos
anos
existe a
Casa
Loubet, na
Rua
7 de
Setembro.
Também
não
sei se
seus
guarda-chuvas
são
melhores
ou
piores
que
os
outros;
são
bons;
meu
pai
os comprava
lá,
sempre
que
vinha
ao
Rio,
e herdei
esse
hábito.
Há
um
certo
conforto
íntimo
em
seguir
um
hábito
paterno;
uma
certa
segurança
e uma
certa
doçura.”
Assim,
esse
objeto
ganha
destaque
porque
traz à
lembrança
momentos
vividos
com
seu
pai
e a
permanência
de
gestos
iniciados
com
essa
convivência.
Comprar
o
guarda-chuva
no
mesmo
lugar
que
o
pai
é uma
forma de
manter
vivo
o
sentimento
do
amor
paterno
e da
infância.
As
descrições
do
guarda-chuva
apontam
sua
natureza
(“tem ao
mesmo
tempo
algo
de
ridículo
e
algo
de
fúnebre”)
e funcionalidade (“ser
muito
usado
em
enterros”,
“grande
acompanhador de
defuntos”),
relacionado às
imagens
da
morte,
porém
é amenizado
pela
sua
personificação
pois “sempre
teve,
apesar
de
seu
feitio
grave,
o
costume
leviano
de se
perder, de
sumir,
de
mudar
de
dono”.
O
guarda-chuva,
assim
como
a
cadeira
de
balanço
austríaca, serve
para
guardar
e
proteger
os
pensamentos
e a “doçura
familiar
dos
sonhos”
e das
reminiscências.
Como
Bandeira
(apud
FRANCHETTI e PECORA, 1980) afirma, Braga é
muito
mais
poético
quando
não
tem
um
grande
acontecimento,
quando
o
valor
da
crônica
reside na
forma
poética
concebida
através
da
linguagem.
Em
Viúva na
praia
(BRAGA, 2004: 119), há
um
jogo
entre
vivo/morto,
com
ênfase
no
estar
vivo,
presente
na
aliteração
do
fonema
/v/
que
atribui ao
texto
a
sua
graça,
pois
se inicia
com
uma
brincadeira
entre
com
a
palavra
viúva:
“Ivo viu a
uva;
eu
vi a
viúva”, e o
verbo
“ver”,
cujo
sentido
percorre
toda
a
narrativa,
filtrada
pelo
olhar
do cronista;
conjugado
na
sua
forma
nominal,
o
gerúndio,
indica o
processo
contínuo
de deslumbramento
diante
do
corpo
feminino,
terminando na
última
frase
com
o
presente
do
indicativo,
ou
seja,
torna
imortal
o
momento
presente.
Essa
visibilidade
também
ocorre
com
a
tonalidade
das
cores
estabelecendo a
fronteira
entre
o
estar
vivo
e o
estar
morto,
como
a
cara
“vermelha”
do
homem
que
morreu “muito
magro
e
sem
cor”,
porém
o
maiô
preto
da
mulher
paradoxalmente
não
representa o
luto,
mas
o
cotidiano
moderado e “decente” da
viúva;
a
cor
preta
do
maiô
e dos
cabelos
“bem
negros”
contrasta
com
a
luminosidade
do
corpo
“brilhando de
sol”,
vestido
de “água
e de
luz”.
A
mesma
luminosidade
invade o
espaço:
“Ondas
espoucam ao
sol.
O
sol
brilha
nos
cabelos
e na
curva do
ombro
da
viúva.
Ela
está sentada,
quieta,
séria,
uma
perna estendida,
outra
em
ângulo.
O
sol
brilha
também
em
seu
joelho.
O
sol
ama
a
viúva.
Eu
vejo a
viúva.”.
O
grande
espetáculo
é a
visão
do
corpo
feminino
iluminado
pelos
raios
do
sol.
O estranhamento é causado
pela
contradição
da
viúva
estar
no
espaço
da
praia
– de
alegria e
divertimento
– e
não
no
espaço
da
reclusão,
como
seria o esperado
em
período
de
luto.
Algumas
considerações
O
olhar
de Rubem Braga
registra,
desse
modo,
as
lembranças
da
realidade
cotidiana
transformada
em
poesia.
As
reminiscências
da
infância,
a
visão
do
corpo
feminino
e,
principalmente,
a
concepção
sobre
o
gênero
são
ricas
fontes
de
inspiração
para
o cronista e
pretexto
para
construir
um
universo
ficcional , fazendo da
crônica
um
gênero
literário.
O cronista
toca o
leitor
pela
simplicidade,
pela
identificação
com
cotidiano,
pois
o
leitor
“aprende a
ler na
história
“inventada” a
sua
própria
história”
(SÁ, 2002: 12). E,
como
destaca Sá,
“a
pressa
de
viver
desenvolve no cronista uma
sensibilidade
especial,
que
predispõe a
captar
com
maior
intensidade
os
sinais
da
vida
que
diariamente deixamos
escapar.
Sua
tarefa,
então,
consiste
em
ser
o
nosso
porta-voz,
o
intérprete
aparelhado
para
nos
devolver
aquilo
que
a
realidade
não-gratificante sufocou: a
consciência
de
que
o
lirismo
no
mundo
de
hoje
não
pode
ser
simples
expressão
de uma
dor-de-cotovelo,
mas
acima
de
tudo
um
repensar
constante
pelas
vias
da
emoção
aliada
à
razão.
Esse
papel
se resume no
que
chamamos de
lirismo
reflexivo”
(2002: 12,13).
Braga
nos apresenta
esse
lirismo
reflexivo
a
todo
momento,
no
olhos
cheio
de
poesia
da
Corretora
do
mar,
ou
no
grande
álamo da
rua
santiaguina,
ou
mesmo
na
casa,
onde
escondemos
nossos
segredos.
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