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A
construção da
memória no
romance
El entenado de Juan José Saer
Ms.
Deolinda de Jesus Freire
Universidade
Federal
do
Triângulo
Mineiro
(UFTM)
deofreire@uol.com.br
A
memória é
um
tema
essencial
e
caro
a
dois
campos
de
produção
textual:
a
história
e a
literatura.
No
campo
da
literatura,
é
um
recurso
de
tessitura
da
narrativa.
A
memória
nunca
significa
apenas
conteúdo
de
discussão,
é
também
mecanismo
de
elaboração
textual,
base
de
constituição
de
representações
comprometidas
em
maior
ou
menor
grau
com
o
verossímil
(PINTO,
1998: 22).
Apesar
de
ser
gerada
por
uma
percepção
individualizada, a
memória
busca
contornos
coletivos,
pois
a
literatura
é uma das possibilidades de
assentamento
de uma
memória
coletiva,
ainda
que
a
forma
de
narrar
seja
individual.
Para
Walter Benjamin (1993: 198), os camponeses e os
marujos
foram os
primeiros
mestres
na
arte
de
narrar.
Os
primeiros
são
herdeiros
das
histórias
de
suas
terras,
bem
como
de
suas
tradições,
e responsabilizam-se
pelo
saber
do
passado.
Já
os
marujos
narram
sobre
as
terras
distantes,
pois,
como
diz o
povo,
“quem
viaja tem
muito
que
contar”.
O
romance
El Entenado, do argentino Juan José Saer, publicado
em
1982, apresenta
um
narrador
que,
claramente,
pertence
ao
grupo
dos
marujos,
pois
quem
nos
conta
a
história
é
um
grumete
que
embarcou
rumo
às
ilhas
Molucas
por
volta
do
ano
de 1516.
Em
poucas
linhas
o narrador
nos
dá
notícia
de
sua
vida,
nos
confidencia
que é
órfão de
pai e
mãe e se criou
nos
portos ao
lado das putas, dos
marinheiros
e
viajantes.
Por
esse
motivo, tem uma
ligação
afetiva
com os
portos,
afinal
estes foram
sua
casa, e possibilitaram
que
ele
conseguisse alistar-se
como
grumete na
expedição
rumo às Índias
para
fugir da
miséria
em
que vivia.
A
travessia
rumo
às
novas
aventuras
dura
longos
três
meses, os
quais
são
qualificados de
extremamente
tediosos,
afinal
nenhum
monstro
daqueles
tão
famosos
nas
fábulas
surgiu
para
quebrar
a
monotonia.
Assim
que
avistaram
terra e desceram
da
embarcação,
o
grumete
nos
apresenta a
primeira
impressão,
pareciam
ter
chegado
ao
paraíso:
uma
terra
excessiva
e
generosa,
com
toda
variedade
animal,
vegetal
e
mineral.
Uma
região
mansa
e
terrena,
parecia
benévola
e,
sobretudo,
real.
Eles
retornam à
embarcação
e continuam remando
em
direção
ao
sul.
Nessa
paisagem
paradisíaca,
faltam
apenas
os
homens.
Essa
ausência
cria
a
ilusão
de
que
a
vida
ali
acabava de
nascer. O
próprio
narrador
nos
diz
que
aquela
terra
tinha
um
cheiro
de
origem,
como
se estivesse nascendo.
Com
a
sensação
de
estar
fundando uma
nova
terra,
o
grumete
é convocado
para
fazer
parte
do
grupo
que
descerá da
embarcação
junto
com
o
capitão
para
o
reconhecimento
daquela
região.
No
silêncio
total,
em
que
o narrador observa
todos
os
movimentos
do
capitão,
parece
que
este
se dá
conta de
um
erro
terrível,
o
qual
o
leitor
nunca
saberá
qual
é,
pois
é nesse
momento
de perplexidade do
capitão
que
o
grupo
sofre uma
emboscada
dos
indígenas.
O
grumete,
e
também
o
leitor,
se assustam ao
perceber
que
todos
os
companheiros
deste estavam
caídos
no
chão
atingidos
por
uma
flecha
na
garganta.
O narrador percebe
ser o
único
sobrevivente.
É nesse
ponto da
narrativa,
que
o
leitor
se dá
conta de
que
a
expedição
da
qual
participou
este
grumete
refere-se à América
Hispânica.
Dessa
forma, o
grumete
imprime à
sua
história
individual
uma
forte
carga
coletiva
ao
acessar
a
memória
das
crônicas
da
conquista,
com
as
quais
mantém
intensa
intertextualidade ao
longo
de
toda
a
narrativa.
O
fato
histórico
tecido
nas
entrelinhas
da
narrativa
refere-se à
expedição
de Juan Díaz de Solís,
que,
em
1516,
acompanhado
de
dez
tripulantes,
desembarcou nas imediações da
ilha
Martín García na
região
do
Rio
da
Prata.
Solís e
seus
companheiros
foram
mortos
em
uma
emboscada
pelos
indígenas,
provavelmente
guaranis
ou
charruas;
os
tripulantes
das
embarcações,
que
presenciaram a
cena,
voltaram
para a
Península
Ibérica.
Após
dez
anos,
a
coroa
castelhana
empreendeu uma
nova
exploração
na
mesma
região
a
cargo
do
Piloto
Mor
do
Reino,
Sebastián Gaboto.
Segundo
algumas
crônicas
da
época,
Gaboto teria resgatado
um
sobrevivente
da
expedição
de Solís: o
grumete
Francisco del Puerto,
que
teria convivido
com
os
indígenas
durante
estes
dez
anos
e
que,
após
ser
recolhido, foi
levado
de
volta
à
sua
terra.
Esta é a
única
notícia
que
se tem
sobre
este
sobrevivente,
pois
não
há nenhuma
outra
referência
sobre
sua
vida
na
tribo
indígena
ou
após
seu
retorno
à
Península
(ROMANO
THUESEN, 1995: 43).
Assim,
esta
personagem
histórica
sem
grande
importância
para
a
expedição
e da
qual
não
há
muita
informação
será o
elo
com
o narrador do
romance
El entenado.
Apesar
de
estar
baseada
em
um
fato
histórico,
afinal
há
documentos
que
comprovam
que
houve
realmente
um
sobrevivente
dessa
expedição
encarregada
de
explorar
a
região,
a
narrativa
não
traz nenhuma
informação
de
tal
acontecimento:
nenhum
nome,
nenhuma
data,
nenhuma
referência
geográfica.
A
ausência
de
dados
e
nomes
impede a
identificação
do
leitor
com
um
ambiente
ou
indivíduo
determinado,
o
que
converte o narrador
em
uma
problemática
universal.
Tal
problemática
está relacionada à
chegada
dos
conquistadores
e colonizadores
castelhanos
ao
Novo
Mundo
e às
teorias
que
se criaram ao
longo
dos
séculos
sobre
os
habitantes
dessa
região.
Essas
teorias tentaram
criar
um
determinado
desenho
e uma
determinada
memória
sobre
a
conquista
e colonização
castelhana,
as
quais
são
resgatadas no
romance
a
partir
das
memórias
desse narrador,
que
decide
contar
sua
história
no
momento
final
de
sua
vida,
ou
seja, na velhice
quando
já
está
com
mais
de 70
anos.
É nesse
momento
de
sua
vida
que
ele
parece
ter a
experiência
da
revelação
e,
finalmente,
desvendar
uma
dúvida
que
lhe
acompanhou
durante
toda
sua
vida
e
que
se
torna
o
eixo
da
narrativa:
o
porquê
de
sua
sobrevivência
e
permanência
naquelas inóspitas
terras
do
Novo
Mundo
e
quais
as
conseqüências
dessa
experiência
em
sua
vida
no
Velho
Mundo.
A
narrativa d’El entenado move-se
entre
duas
dimensões
temporais:
o
presente e o
passado. O
presente é marcado
pela velhice do narrador,
como
já
apontado,
que decide
viver na
cidade,
porque
aí a
vida é
horizontal,
ou seja,
ideal
para
um
velho. Esta velhice se contrapõe à
juventude
vivida
em
contato
com
a
natureza
do
Novo
Mundo:
rios,
céu,
estrelas,
árvores. Nas primeiras
linhas
do
romance,
nos é apontada a
contraposição
entre o ‘aqui’, a
cidade
que dissimula e oculta o
céu,
e o ‘allá’,
em
que as
estrelas eram tantas
que se
tinha a
impressão de
poder tocá-las
ou
ser ‘aplastados’
por
elas.
Dessa
forma,
essa
memória
de
um ‘allá’ é resgatada
para
marcar
a
contraposição
entre
o
velho
e o
novo,
entre
o
conhecido
e o
desconhecido,
entre a velhice e a
juventude,
entre o
que se vive e o
que se viveu. No
lado
desconhecido de
sua
vida, representado
pelo
Novo
Mundo, está a
razão de
seu
viver e o
porquê da
escritura de
sua
história. É
necessário
lembrar e
escrever
sobre
esse
passado
como uma
forma de
compreender
sua
própria
existência no
presente.
Entretanto,
o narrador,
que
nunca
é nomeado, revisita o
passado
com
o
olhar
do
presente.
A
memória
é o
recurso
para
a
recuperação
de
seu
passado
e o da
tribo,
pois
ambos
são
rememorados
por
um
único
ponto
de
vista:
o do narrador
em
primeira
pessoa,
ou
seja,
também
personagem.
Assim
como
ocorre
em
Proust,
não
é uma
vida
contada
como
de
fato
ela
foi,
mas
sim
lembrada
por
quem
a viveu (BENJAMIN, 1993: 37).
Porém,
diferentemente
de Proust, a
manifestação
da
memória
aqui
não
é
involuntária,
mas
sim
um
ato
consciente
de
recuperar
e
explicar
um
passado
individual
com
uma
forte
carga
coletiva,
afinal
aquela
tribo
indígena
depende de
sua
escritura
para
não
ser
esquecida. O
recurso
da
memória
é
essencial
na
construção
da
narrativa
porque
um
acontecimento
vivido
é
finito,
ou
pelo
menos
encerrado na
esfera
do
vivido,
ao
passo
que
o
acontecimento
lembrado é
sem
limites,
porque
é
apenas
uma
chave
para
tudo
o
que
veio
antes
e
depois.
Num
outro
sentido
é a
reminiscência
que
prescreve,
com
rigor,
o
modo
da
textura
(BENJAMIN, 1993: 37). A
memória
atribui
importância
a
tudo
que
evoca o
passado,
essa
evocação
assegura
sua
manifestação
no
presente,
além
de
permitir
e
guiar
uma
interpretação
ou
ressignificação no
futuro.
No
caso
d’El entenado, o
que
parece
importar
de
forma
insistente
ao narrador é
um
momento
específico de
sua
reminiscência,
um
momento
que pode levá-lo a
desvendar o
porquê de
sua
sobrevivência e
permanência naquela
tribo,
sem
que fosse devorado
em
um
ritual
canibal,
como aconteceu
com
seus
companheiros, os
quais foram
mortos no
momento de
sua
captura. O
canibalismo, e a
discussão
em
torno desse
tema, é
um dos
momentos
cruciais da
narrativa.
Esse
resgate
marca
um
importante
elo da
narrativa
com as
crônicas da
conquista,
bem
como
com o
homem do
século XVI,
pois o
interesse
europeu
por
esse
tema tornou-se uma
obsessão
nos
anos
que
se seguiram à
chegada dos
castelhanos ao
Novo
Mundo (PAGDEN, 1988: 118). Francisco de Vitoria,
mestre
da
Escola
de Salamanca, atesta
em
sua
obra De Indis
que
a
razão
central
de
que os
homens civilizados
não se comem uns aos
outros
operava
em
um
nível
mais
profundo do
que acreditavam
alguns filósofos da
época. Os
indígenas,
além de estarem cometendo o
pecado
da
ferocidade
ao comerem-se uns aos
outros, transgrediam a
lei
natural
que
impedia o
assassinato de
homens
inocentes,
além de violarem as
divisões
hierárquicas da
criação.
Afinal, na
natureza,
nenhum
homem possui
outro
tão
absolutamente
que possa usá-lo
como
alimento
(PAGDEN, 1988: 125).
Entretanto, o narrador d’El entenado sugere
que
o
canibalismo
operava
em uma
dimensão
ainda
mais
complexa do
que a defendida
por Vitoria,
dimensão esta
que, provavelmente,
nenhum
homem
do
século
XVI
poderia
alcançar.
Para
ele,
a
tribo
não
comia
carne
humana
para
se
alimentar,
como
acreditaram
muitos dos cronistas e filósofos da
época,
tampouco
havia nesse
ritual a
busca
pelo
prazer. O
que
ele pôde
perceber
em
sua
longa
convivência
com os ‘colastiné’ é
que
aquele
gesto
coletivo
era
simplesmente
necessário
para a
sobrevivência da
tribo.
Tal
teoria revela
extremo
anacronismo
com o
pensamento do
homem do
século XVI,
pois
não seria
plausível de
ser elaborada
por
estudiosos e cronistas da
época.
Afinal, exigiria destes uma
aceitação
do
outro
e de uma
cultura
tão
diferente da do
europeu.
Para
chegar
à
sua
teoria
sobre
o
canibalismo,
o narrador se muniu da
observação
minuciosa
dos
passos
de
tal
prática
ao
longo
dos
anos
que
conviveu
com
aqueles
indígenas.
A
repetição
do
ritual
antropofágico permitiu
que
o
grumete
chegasse à
conclusão
de
que
este
sempre
acontecia no
verão.
Era
na
chegada
desta
estação
que
a
disciplina
espontânea
da
tribo
se deteriorava e a
atitude
dos
índios
mudava,
pois
estes
deixavam de
ser corteses e
distantes
para
tornarem-se
totalmente
indiferentes,
andando
pela
tribo
como
se fossem
sonâmbulos.
Segundo
o narrador, parecia
que
os
indígenas
pressentiam a
falta
de
algo,
como
se procurassem
sem
saber
o
quê,
nem
mesmo
sabiam se haviam perdido
algo.
Este
estado
prenunciava o
preparo
das
flechas
e a
saída
em
canoas
para
realizar
a
busca
necessária
para
o
ritual.
Retornavam, ao
anoitecer,
com
alguns
corpos
e
com
um
prisioneiro.
Começava
aí
a
repetição
do
ritual,
o
qual
o narrador
tinha
presenciado
pela
primeira
vez
com
os
corpos
de
seus
companheiros.
Porém,
havia uma
diferença,
que
para
o narrador
era
sua
própria
razão
de
viver,
afinal
os
prisioneiros
sabiam o
que
ele
nunca
soube: o
porquê
estavam
ali
naquela
tribo e
qual
era
o
seu
papel.
Esse
foi o
objeto
de
reflexão
de
toda
a
vida
do narrador e a
terrível
dúvida
que
o acompanha
até
o
momento
em
que
tece a
narrativa,
momento
este
em
que
ele
ainda
não
tem
certeza
de
ter
compreendido o
seu
papel:
“(...) y hoy todavía, sesenta años
más
tarde,
mientras escribo, .... no estoy
seguro
de haber
entendido,
aun cuando ese hecho haya sido, a lo
largo
de
mi
vida,
mi
único
objeto
de reflexión, el
sentido
exacto de esa esperanza.” (SAER, 1988: 101)
Depois
de
dois
ou
três
meses do
ritual,
um
fato
atormentava
ainda
mais
o narrador,
pois,
diferentemente
do
que
acontecera
com
ele,
o
prisioneiro
era
colocado
em
uma
canoa
e partia
com
ar
de
superioridade.
Essa
partida
o desconcertava
ainda
mais,
afinal
todos
os
prisioneiros
partiam,
com
exceção
dele.
Com
o
ritual,
os
índios
saíam de
um
tipo
de
buraco
negro,
como
se pudessem
ter recuperado o
sentido
da
vida.
Apesar
das inúmeras
tentativas,
o
grumete
não
conseguiu
saber
nem
entender
completamente
o
porquê
do
ritual,
pois
os
índios
não
se lembravam,
ou
não
queriam
lembrar,
do
que
acontecia
durante
a
comilança.
O
esquecimento
é uma das
partes
mais
obscuras da
memória
e das
mais
férteis, é o
lugar
incerto da
peregrinação
e da
busca.
Segundo
Le Goff (1984: 13), o
que
se esquece é
tão
importante
quanto
o
que
se lembra,
pois o
que
você
lembra se transforma
em
um
ato
de
dominação.
Dessa
forma, os
esquecimentos
e os
silêncios da
história
são
reveladores dos
mecanismos
de
manipulação
da
memória
coletiva.
Depois
de
muitos
anos
de
convivência
com
aqueles
indígenas
e presenciando,
verão
após
verão,
o
ritual
do
canibalismo,
o narrador é colocado
em
uma
canoa
e
mandado
embora.
Após
remar
por
um
dia
inteiro,
é encontrado na
beira
de
um
rio
por
homens
barbudos
com
armas
de
fogo;
imediatamente
os reconheceu,
pois
já
os havia
visto
durante
a
infância
nos
portos
da
Península.
A
primeira
característica
que
distinguiu o narrador dos
índios
e fez
com
que
não
fosse
morto
por
aqueles
homens
foi
sua
barba.
A
partir
dessa
cena,
inicia-se a
terceira
etapa
de
sua
vida:
o
retorno
à
Península.
Porém,
a
dúvida
sobre
sua
permanência
na
tribo
o acompanhou
por
toda
sua
vida,
de alguma
forma esta
dúvida
transfere-se
para o
sentido
de
sua
própria
existência
no
mundo
e o
motivo
da
escrita
sobre
sua
história
e
também
a da
tribo.
É essa
dúvida,
desvendada
pelo narrador
apenas
no
final
da
narrativa
e
também
de
sua
vida,
que
envolve o
leitor
para
que
este
participe da
revelação
tanto
do
sentido
da
reminiscência
como
do
porquê
de
escrever
sobre
os Colastiné.
Já
na
Península,
o narrador adquire as
ferramentas
necessárias
para o
que
acredita
ser
sua
missão:
aprende a
ler e a
escrever.
No
momento
em
que
escreve
suas
memórias,
reconhece a
importância
desse
aprendizado,
pois
é a
escrita
que
justifica
sua
existência.
Assim,
a
construção
da
narrativa
é a
busca
de
um
sentido,
o desdobramento de uma
pergunta
que
se encaminha
para uma
resposta
reveladora, retida no
momento
simbólico,
ou
seja, numa
parte
privilegiada
por
encarnar
a
história
como
um
todo.
As muitas
histórias
que
se constroem na
narrativa
a
partir
de
um
mesmo
ponto
se articulam e
são
legatárias da
dúvida
de
origem,
que
é a
dúvida
sobre
sua
própria
existência.
Para
responder,
em
parte,
a essa
dúvida,
o narrador
volta
a uma
imagem
gravada
em
sua
memória:
o
momento
em
que
foi colocado
em
uma
canoa
e
mandado
embora
da
tribo.
Ao
resgatar
essa
imagem, o narrador percebe
e
nos
revela
que,
para
realizar
os
rituais
canibais,
a
tribo
precisava
eleger
um
expectador
para
ser,
como
ele,
“Def-ghi”.
Nome
que
sempre
era
atribuído ao
prisioneiro
e
que
foi atribuído a
ele
no
momento
do
ataque
à
expedição
da
qual
fazia
parte.
Este
espectador,
depois
de
dois
ou
três
meses,
já
no
início
do
outono,
era
devolvido à
sua
tribo
de
origem.
Ele,
o
grumete,
havia permanecido na
tribo,
simplesmente
porque
os
índios
não
sabiam
para
onde
deviam enviá-lo.
Quando
viram
homens
parecidos
com
ele
pelas
redondezas,
mandaram-no de
volta.
O
nome
dado
aos
prisioneiros
expectadores,
“Def-ghi”, significava,
entre
outras
coisas,
aquele
que
se coloca
em
lugar
de
um
ausente
e
também
aquele
que
se separa do
grupo.
Ao
fim
e ao
cabo, “Def-ghi”
era
o
encarregado
de
perpetuar
a
tribo
com
sua
memória
além
das
fronteiras
do
mundo.
A
tribo
trazia
um
sobrevivente
para
assistir
ao
ritual
para
que
depois
este
se tornasse o narrador
além
das
fronteiras
tanto
geográficas
como
memorialística da
tribo.
Dessa
forma, parece
que
a
vida
do narrador é preservada
para
que
ele
possa
contar a
história
da
tribo,
mesmo
porque
esta foi,
depois
da
sua
partida,
dizimada
pelos
conquistadores.
Essa
era a
razão
e o
porquê
de
sua
existência:
narrar
a
história
daquela
tribo
para
que
esta
não fosse esquecida, o
recurso
utilizado, obviamente, é a
memória.
O narrador
usa
da
memória
como
recurso
para
tentar
compreender
os
indígenas
e
seus
rituais
como
também
a
sua
própria
existência.
Afinal,
não
se pode
esquecer o
passado,
pois
o
presente
não
tem
sentido
sem
o
parentesco
com
ele.
A
função
do
passado
aqui
é
tentar
responder
aos
incômodos
do
presente,
principalmente
de
um
momento
crucial
para
a América: a
chegada
do
outro.
O
autor
do
romance,
Juan José Saer, ao
citar
a
obra
Zama de Antonio Benedetto, afirma
que
“no se reconstruye ningún pasado
sino
que
simplemente se construye
una
visión del pasado (...) Al hacer más
evidente
este
pasado, al convertirlo en pasado crudo,
nítidamente
alejado de la experiencia
narrativa,
el narrador no quiere
sino
sugerir
la persistencia
histórica
de ciertos
problemas”.
Um
dos
problemas
que
Saer propõe ao
construir
a
narrativa
d’El Entenado, e
que
persiste
até
os
nossos
dias,
é a
chegada dos espanhóis ao
continente
americano,
nomeado
como
‘Novo
Mundo’,
e a
problemática
que
envolveu os
debates
sobre
o
homem
que
vivia
aqui
e
seu
próprio
reconhecimento,
assim
como
sua
destruição.
Problemas
que
já
afloravam no
diário
e nas
cartas
de Colombo e
que
alcançaram
um
grau
de
seriedade
científica
nos
textos
de Oviedo (GERBI, 1996: 13).
Para
discutir
a
persistência
histórica
de
certos
problemas,
cuja
origem
data
da
fundação
de uma
região,
a do
Rio da
Prata,
Saer apresenta uma
narrativa
cujo
narrador, praticamente
sem
origem
por
se
tratar
de
um
órfão
criado
nos
portos
da
Península,
recorre à
sua
memória
para
dar
sentido
à
persistência
desses
problemas
e à
sua
própria
existência,
intrinsecamente relacionada à
chegada
dos espanhóis no
Novo
Mundo.
Assim,
a
memória
é
um
recurso
que
aponta
para uma
problemática
coletiva.
O narrador opera uma
leitura
individual
de
um
passado
possível
ou
de uma
representação
possível
de
um
momento
de
fundação
do
que
futuramente
viria a
ser uma
nação.
O
passado
é o
substrato
tanto
da
memória
como
da
história,
porém
a
dissonância
entre
os
dois
fazeres
é
grande:
a
memória
tecida
sobre
um
determinado
evento
dificulta a
percepção
histórica
que
se pode
ter desses
episódios,
refaz o
itinerário
de
atribuição
de
sentidos,
constrói
um
fato
oferecendo
explicação
coerente
a
episódios,
na
origem,
desconexos.
Mais
do
que
pura
representação,
a
memória
afirma-se,
diferentemente
da
história,
pela
capacidade
de
assegurar
permanências,
manifestações
sobreviventes de
um
passado,
muitas
vezes,
sepultado,
sempre
isolado do
presente
pelas muitas transformações,
pelos
cortes
que
fragmentam o
tempo.
A
memória
como
lugar
de
persistência,
de continuidade de
capacidade
de
viver
o
hoje
inexistente.
Mais
aparentada
à
ficção
do
que
à
história,
a
memória
atribui
importância
a
tudo
que
evoca o
passado
e assegura
sua
manifestação
no
presente.
A
memória
recupera a
história
vivida,
enquanto
experiência
humana
de uma temporalidade, tornando-se
espaço
de problematização e de
crítica.
A
memória
é
sempre
suspeita
para
a
história,
cuja
verdadeira
missão
é destruí-la e reprimi-la,
seu
lugar
de
sobrevivência
permanece no
discurso
literário.
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