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AVATAR
– Da
Ficção
Científica
à
Realidade
Virtual:
A
Alegoria
da
Ecologia
e da
Tecnologia.
Prof. Dr. Jairo
Nogueira
Luna
"Avatar"
provém do
sânscrito
"avatāra",
conceito
característico
do
Hinduísmo,
cujo
significado
se refere à "descida
de uma
divindade
do
paraíso
(à
Terra)"
e a
aparência
terrena
da
divindade.
(especialmente
refere-se às
dez
formas
de
representação
terrena
de Vishnu).
Em
informática,
avatar
é a
representação
visual
de
um
utilizador
em
realidade
virtual.
De
acordo
com
a
tecnologia,
pode
variar
desde
um
sofisticado
modelo
3D
até
uma
simples
imagem.
Em
termos
religiosos
gerais,
o
avatar
se refere à
encarnação
divina.
Nesse
sentido
Cristo,
por
exemplo,
seria
um
avatar.
Considera-se
que
o
avatar
na
terra
teria
como
missão
trazer
o
advento
duma
nova
era
espiritual.
No
filme
Matrix, o
personagem
principal,
Neo (Keanu Reeves) seria
um
avatar.
Bem,
após
esse
breve
parágrafo
acerca
do
conceito
de
Avatar,
vamos
tratar
do
filme
homônimo
(Avatar,
2009),
direção
de James Cameron,
com
Sam
Worthington, Zöe Saldaña, Sigourney Weaver e Stephen Lang
nos
papéis
principais,
distribuído
pela
20th Century Fox. O
filme,
que
logo
superou a
cifra
de 1
bilhão
de dólares
em
arrecadação de
bilheteria,
se tornando o
mais
assistido, superando Titanic (do
mesmo
diretor)
e o
Senhor
dos Anéis,
apresenta
inovações
tecnológicas,
com
destaque
para
os
recursos
de 3D e de
animação
interativa.
Porém,
quero
chamar
a
atenção
para
alguns
aspectos
do
filme
que
me
parecem apresentam
um
conjunto
de possibilidades interpretativas
que, a
meu
ver,
concretizam uma
mudança
na
consciência
de
parcela
pensante
da
sociedade
norte-americana
acerca
de
seu
papel
no
século
XXI e no
modo
como
tentam
redimensionar
os
conflitos
sociais
e
nacionais
em
que
os
Estados
Unidos tem se envolvido
recentemente.
O
primeiro
aspecto
que
chamarei a
atenção
é
para
o
sentido
alegórico do
planeta
Pandora. No
filme,
Pandora é o
planeta
que
é o
alvo
das
expedições
espaciais
terrestres
(norte-americanas)
em
busca
de
recursos
naturais,
uma
vez
que
os da
Terra
se esgotaram.
Com
imensas
máquinas,
tratores,
escavadeiras,
os
exploradores
terráqueos
invadem
um
rico
meio-ambiente
cuja
característica
é a
exuberante
floresta
equatorial.
A
destruição
do
ecossistema
é
evidente,
haja
vista
que
a
indústria
extrativa
humana
não
tem
nenhum
escrúpulo
quanto
à
necessidade
de
atender
a
demanda
do
minério
buscado.
A
apresentação
da
rica
floresta
equatorial
de Pandora se faz
pela
estética
do
exagero
e da
exuberância.
Árvores
colossais,
espécies
animais
exóticas de
cores
e
formas
inusitadas,
um
mundo
dominado
por
répteis e
aves.
Pandora,
conquanto
seja uma
referência
mitológica
à
mulher
que
abriu a
proibida
caixa
dada
por
Epimeteu, libertando
todos
os
males,
deixando nela
apenas
a
esperança
é
também
a
última
esperança
de
reencontrar
o
caminho
de
entendimento
harmonioso
com
a
Natureza.
Em
certo
sentido,
o
mito
de Pandora corresponde ao
mito
de Eva e o
pecado
original
no
paraíso.
Em
Avatar,
o
planeta
Pandora
guarda
todas as possibilidades de
recuperação
da
civilidade
humana,
é uma
espécie
de
última
esperança
de reorientação de uma
civilização
calcada na
exploração
de
recursos
naturais
não
renováveis e na
destruição
da
Natureza.
A
mensagem
ecológica
vai se tornando
evidente
quando
comparamos as
personagens
que
representam os
militares
e os
cientistas
no
filme,
em
especial,
o
Coronel
Miles
Quartich (Stephen Lang) – o
grande
vilão
– e a Dr.ª Grace Augustine (Sigourney Weaver), a
cientista
chefe.
O
vilão
tenta
usar
de
todos
os
recursos
bélicos
para
dominar
o
planeta
e
tirar
do
caminho
os
nativos
que
tentam
impedir
a
destruição
da
Natureza
local.
A Dr.ª Grace, criadora do
projeto
Avatar,
busca
entender
o
processo
de
integração
entre
a
consciência
nativa
e o
ecossistema
local,
desconfiando
que
exista uma
rede
comunicativa
entre
as
mentes
e o
ecossistema
do
planeta.
O
episódio
da
morte
da Dr.ª Grace,
em
que
sua
mente
é absorvida
pela
divindade
Eywa –
espécie
de
consciência
planetária
que
preserva a
riqueza
do
habitat
local
– é a
metáfora
da
Ciência
buscando a
harmonia
com
a
Natureza,
a
partir
do
entendimento
de
suas
leis
e do
modo
de
compactuar
com
vistas
ao
entendimento
da
própria
natureza
humana.
Para
nós,
sulamericanos, a
rica
natureza
local
parece-nos de
imediato,
uma
referência
à
importância
que
a
Floresta
Amazônica
galgou
nos
últimos
tempos
de
discussão
acerca
da
ecologia.
O chamado
mercado
do
Carbono,
o
protocolo
de Kyoto, a
reunião
do
Rio
92 e a
recente
reunião
de Copenhague, foram
etapas
de
um
conturbado
processo
de
discussão
acerca
das
relações
entre
nosso
sistema
industrial
poluidor e extrativista
com
a
necessidade
de
preservação
dos
ecossistemas
como
ponto
básico
para
sustentação
da
vida
no
planeta.
O
Brasil,
como
detentor
da
maior
parte
do
território
amazônico
tem
metas
de
utilização
dos
recursos
naturais,
assim
como
também,
metas
de
usufruto
das possibilidades no
mercado
do
carbono.
No
filme
Avatar,
a
riqueza
natural
da
floresta
tem a interessante
concepção
de
que
a
atmosfera
de Pandora é irrespirável
para
o
ser
humano,
uma
vez
que
ela
é
composta
de
dióxido
de
carbono,
metano
e
amônia,
curiosamente
são
os
vilões
da
poluição
atmosférica
que
mostram a
incapacidade
de
respirar
esses
gases
tóxicos,
e o
vilão
–
Coronel
Miles
– tem na
cena
do
conflito
final
com
o soldado-avatar Jake Sully (Sam
Worthington) o
momento
crucial
de
tentar
respirar
na
atmosfera
ambiental –
metáfora
da de
nossa
época
industrial
e
urbana.
Lembremos da
saga
do
Coronel
Fawcett na
floresta
amazônica
nos
idos
dos
anos
20
em
busca
de uma
suposta
civilização
perdida,
ou
ainda
do
projeto
Fordilândia de Henry Ford. As
dificuldades
americanas de se
adaptar
a
um
ambiente
completamente
diferente
de
qualquer
coisa
que
exista no
território
norte-americano.
O
explorador
europeu
também
se extasiou
diante
da Amazônia e
sua
busca
de
entendimento
da
nova
realidade
natural
foi
resultado
de
um
processo
de
superação
e de
conflitos
com
sua
visão
de
natureza.
Humboldt
em
1800 deslumbrou-se
ante
a
imensidão
e a
opulência
da
Natureza
da
floresta
amazônica:
“de
engolir
um
cavalo,
até
o
colibri,
capaz
de balouçar-se no
cálice
de uma
flor."
- Alexander von Humboldt, 1800. Foi,
aliás,
Humboldt
quem
alcunhou a
floresta
de “Hiléia”.
A
capacidade
exuberante
e
assombrosa
da
floresta
é retratada de
forma
simbólica, alegórica e
mágica
no
poemeto
épico
de Raul Bopp,
Cobra
Norato,
em
que
tudo
é
vivo
e
festeja:
“Começa
agora
a
floresta
cifrada.
A
sombra
escondeu as
árvores.
Sapos
beiçudos
espiam no
escuro.
Aqui
um
pedaço
de
mato
está de
castigo.
Árvorezinhas acocoram-se no
charco.
Um
fio
de
água
atrasada lambe a
lama.”
Em
O
Missionário
de
Inglês
de Sousa, a
floresta
como
um
caldeirão
de
sensações
religiosa,
fazendo o
protagonista
–
religioso
de
duvidosa
vocação
-
sucumbir
ante
as
necessidades
sexuais
primárias.
Não
esqueçamos,
dentre
outros,
de
citar
a
obra
de Márcio Souza (Galves – o
imperador
do
Acre,
Mad Maria)
Pois
bem
essa
digressão
literária
serve
para
mostrar
como
a
floresta
amazônica
é o
cenário
em
que
a
consciência
humana
se recicla
ante
um
novo
sistema
circundante de
sensações
e
emoções
causadas
por
um
espaço
em
que
a
nossa
noção
de
tridimensionalidade
e de
tempo
se
vê
modificada. O
horizonte
praticamente
deixa
de
existir,
tudo
é
verde
e
escuro,
a
luz
do
Sol
surge
em
raios
esparsos
entrecortando
poucos
pontos
livres
na
densa
floresta.
As
árvores
mais
altas
apresentam
um
ecossistema
dividido
por
faixas
de
altura.
Na
copa
mais
alta
um
conjunto
de
animais
entre
aves,
roedores,
primatas
e
insetos,
sobrevive
quase
que
sem
tomar
conhecimento
do
que
se
passa
ao
nível
do
solo.
Por
sua
vez
a
vida
do
solo
ainda
está
acima
do
habitat
que
se
encontra
submerso
pelas
enchentes
sazonais
e
igarapés.
Em
Avatar
a
floresta
é
assim
uma
cópia
hollywoodiana, ficcionalizada dos
ecossistemas
da
floresta
amazônica.
A
árvore
em
que
a
tribo
Na’vi,
clã
Omaticaya,
mora
– Kelutral,
em
língua
Na’vi
ou
Hometree,
em
inglês
- é a transposição
literal
do
ecossistema
das
árvores
amazônicas
para
a
tela
de
cinema.
Os
próprios
caracteres
fisionômicos desses
habitantes
estão
mais
próximos
dos
caracteres
dos
índios
amazônicos
(Carajás,
Tapajós, etc...) do
que
do
antigo
modelo
de
homem
das
florestas
hollywoodianos
que
era
calcado no
modelo
africano:
o
negro
de
corpo
pintado
de
formas
e
linhas
geométricas brancas,
como
era
típico
em
seriados
como
Gin das
Selvas,
Tarzan.
Havia
ainda
uma
segunda
opção
hollywoodiana de
representação
da
floresta
que
era
o
modelo
indiano
ou
asiático,
inspirada
em
Kipling[autor
de mogli]
com
seus
tigres
e
elefantes
vivendo num
cenário
que
variava da
densa
floresta
à
savana
e à
várzea.
Os “selvagens”
locais
tem
caracteres
mais
de
índios
sulamericanos: a
pele
azulada da
maioria
ou
amarela
de
alguns
(o
herói
e a
heroína
tem o
rosto
azulado –
sentido
figurado
índice
de
sua
estirpe
nobre,
algo
de
caractere
ocidental
europeizado),
assim
como
os
cabelos,
naturalmente
lisos
e
compridos,
cortados de
forma
singular,
as
vezes,
ao
modo
moicano.
O
modo
de
integração
entre
a
natureza
e o
homem
– no
caso
metaforizado de
forma
simbólica
pelos
cabelos,
que
formam uma
mecha
semelhante
a
um
tentáculo
que
se ligam às dos
animais
locais,
como
se fossem
portas
USB. Ao
mesmo
tempo,
ela
sugere
outro
nível
de metaforização do
sistema
daquele
planeta.
A
consciência
planetária
interligada e
esses
cabos-tentáculos interagindo
em
trocas
contínuas de
informação
e
energia
é a
metáfora
da
rede
de
computadores
mundial a Word wide web.
Quando
na
batalha
decisiva,
todos
os
animais
do
planeta
comparecem
para
auxiliar
a
vencer
os maquinários pesados e
bélicos
dos
terráqueos
invasores,
o
que
temos é a
configuração
de uma
rede
conectada
em
razão
de
um
ponto
comum,
qual
seja o do
princípio
da
sobrevivência.
Os AMPs (Plataforma
de
Mobilidade
Amplificada)
espécie
de
exoesqueleto
metálico
controlado
por
um
cockpit,
que
dá a essa
máquina
a
impressão
de
ser
um
imenso
robot,
ou
um
trator
com
pernas
metálicas, compõem o
retrato
duma
tecnologia
ultrapassada,
mecânica
apenas
e
não
propriamente
eletrônica,
muito
menos
simbiótica. Os
avatares,
por
sua
vez,
representam o
ponto
de intersecção
entre
a
tecnologia
e a
linguagem
do
universo.
Momento
em
que
códigos
naturais
como
o DNA, as
ligações
moleculares
ou
as
ligações
atômicas estão conectadas ao
sistema
eletrônico
criado
pelo
homem.
Desse
modo
quando
o
herói,
deitado
numa
cápsula
adormece,
seu
avatar
recebe a
consciência
desperta e entra no
mundo
das
comunicações
naturais.
O
general,
no
clímax,
a
morrer
dentro
da
cabine
de
seu
AMP é o
momento
de
superação
duma
tecnologia
por
outra.
A
virtualidade,
a informatividade
associada
aos
recursos
de
linguagem
da
natureza
são
mais
sutis e
mais
eficientes
que
os
cabos,
pilhas,
baterias
e
alavancas
do
monstro
máquina.
De
fato,
a nanotecnologia,
por
exemplo,
caminha
no
sentido
dessa
integração
entre
a
tecnologia
eletrônica
criada
pelo
homem
e a
linguagem
dos
códigos
naturais.
Imagina-se,
por
exemplo,
nano-robots agindo
como
mensageiros
no
corpo
humano
a
entregar
drogas
de
efeito
curativo
no
lugar
adequado, às
células
adequadas, melhorando a
eficiência
das
drogas.
No
âmbito
da
informática,
os
conhecimentos
da
física
moderna
permitem as primeiras
experiências
com
os
computadores
quânticos, fundamentados no
estado
ambíguo
do
elétron,
reforçando a
tese
do
princípio
da
incerteza
de Heisenberg.
Eis,
por
fim,
a
grande
alegoria
de
Avatar,
a
relação
entre
o
cinema
e a
realidade.
Os papéis de
herói
e
heroína
são
avatares
– na
concepção
do
filme
–
reais.
A
atriz
Zöe Saldaña
que
faz o
papel
de Neitiri – a humanóide Na’vi
heroína
– tem
toda
a
aparência
modificada
por
recursos
de
maquiagem
e de
efeitos
especiais
– Motion Picture. Os Na’vi tem uma
constituição
física
surpreendente,
medindo
quase
3
metros
de
altura,
com
caudas,
ossos
naturalmente
reforçados
com
fibra
de
carbono
e
pelo
bioluminescente, os Na'vi vivem
em
harmonia
com
a
natureza
e
são
considerados
primitivos
pelos
humanos.
Os
atores
nos
papéis de Na’vi
ou
Avatares
são
assim
inseridos num
mundo
virtual
em
que
seu
próprio
corpo
e
aparência
física
são
modificados. Pode-se
contrapor
que
os
atores
que
representam
figuras
monstruosas
em
filmes
como
os
seriados
japoneses
classe
B
ou
C, os
monstros
de
filmes
antigos
de Hollywood
também
tiveram
processo
semelhante
de transformação
corporal,
nesse
sentido
não
seria
novidade.
O
que
é
novidade
é
que
a
própria
transformação se insere na
trama
cinematográfica
como
tema
da
relação
entre
a
realidade
e a
virtualidade.
Assim,
o
herói
Jake (Sam
Worthington) vai aos
poucos
deixando de
ser
humano
para
assumir
sua
personalidade
Na’vi,
alegoria
do
processo
de
representação
do
papel
Na’vi
pelos
atores.
O
cinema
é
parte
do
mundo
virtual
criado
pelo
homem,
talvez
o
mais
mágico
dos
recursos
desse
mundo
virtual.
Com
o
auxílio
da
tecnologia,
a
câmera
vai deixando de
ser
apenas
o
olho
do
diretor
controlando o
olhar
da
platéia,
é
agora
uma
janela/olho
para
o
mundo
da
imaginação
em
que
formas,
cores,
sons
sinestesiam-se num
mundo
mágico.
Referências
Bibliográficas:
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Que
é
Cinema.
São
Paulo,
Brasiliense,
Col.
Primeiros
Passos,
1980.
BOPP, Raul.
Cobra
Norato e
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Civilização
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1987.
IRWIN, William. Matrix:
Bem-vindo
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Deserto
do
Real.
Rio
de
Janeiro,
Madras,
2003.
METZ, Christian. A Significação no
Cinema.
São
Paulo,
Perspectiva,
col.
Debates
n.° 54, 1972.
TAVARES, Bráulio. O
Que
é
Ficção
Científica.
São
Paulo,
Brasiliense,
Col.
Primeiros
Passos,
1989.
SUPERINTERESSANTE,
Especial
Avatar.
São
Paulo,
Editora
Abril,
n.° 274ª,
janeiro,
2010.
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Sessão BLOG!
Marginália
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