ORFEU SPAM APOSTILAS
António Feliciano de Castilho (1800-1875) nasceu e faleceu em Lisboa. Aos seis anos, por motivo do sarampo, cegou. Não obstante isso, seguiu estudos regulares, graças ao auxílio de seu irmão Augusto Frederico. Em 1817, matriculou-se na Universidade e em 1826 estava formado em Cânones. A seguir, fixou-se com o irmão em Castanheira do Vouga, perto de Águeda, e aí se conservou uns oito anos, em situação que muito favoreceu o estudo e a produção literária. Esteve na Madeira e nos Açores e visitou o Brasil. – Dedicou-se à tradução de obras em latim, francês e inglês.
Obras Principais: Cartas de Eco e Narciso (1821); A Primavera (1822); Amor e Melancolia (1828); A Chave do Enigma; A Noite do Castelo (1836); Os Ciúmes do Bardo (1836); Crónica Certa e muito Verdadeira de Maria da Fonte (1846); Felicidade pela Agricultura (1849); Escavações Poéticas (1844); Presbitério da Montanha; Quadros da História de Portugal (1838); O Outono (1863).
Traduções: A Lírica de Anacreonte; Metamorfoses e Amores, de Ovídio; Geórgicas, de Virgílio; Médico à Força, Tartufo, O Avarento, Doente de Cisma, Sabichonas e Misantropo, de Molière; O Sonho de uma Noite de S. João, de Shakespeare; Fausto, de Goethe.; D. Quixote de La Mancha, de Cervantes.
A CHAVE DO ENIGMA
A SOLIDÃO
Tem a solidão isto de comum com o silêncio e a escuridade: espanta; e aturde quem nela cai; mas, logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desofuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de raios. fosforescências indecisas, que são como que os infusórios das trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo, a calada aviventou-se de diálogos, a solidão, que parecia o nada, é o teatro com o seu drama, é um mundo novo com um sistema completo de existências imprevistas e apropriadas.
Que admira? A solidão medita, e a meditação cria. Os sentidos pastam só no que lhes oferecem a natureza, a fortuna, o acaso: a divindade interior, a alma, tem comércios inefáveis com o íntimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Patmos, divisa uma Jerusalém celeste; nas cogitações de Sócrates, aparece o Omnipotente; nos êxtases de Platão. reflexos da Trindade; nos cálculos taciturnos de Galileu, firma-se o céu, volteiam as plantas: Colombo faz surgir do fundo dos mares a América; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hipógrafo, o pégaso do vapor, magia, poesia, potência escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes e amanhã, talvez, dos ares; a solidão cismadora dá a Eneida a Virgílio, mostra a Lineu os amores e o sono das plantas, a Dante o Inferno, a Fourier o paraíso terrestre, a Newton e a Laplace o código dos astros, a Daguerre os talentos artísticos do Sol, ao Gama o caminho do Oriente, ao soldado Camões o da imortalidade, põe na mão de Gutembergue a chave do cofre das ciências, na de Vicente de Paulo a da caridade, na de Say a da riqueza pública, na de Pestalozzi e Froebel a da escola séria e fecunda.
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Arquimedes, a sós com a natureza e com o seu génio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como num antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada dos inimigas; não acorda à voz do soldado de Marcelo, que, de espada desembainhada, lhe ordena que o siga; sem o sentir, é degolado. Cai a grande cabeça, irmã entre irmãs, no meio das esferas celestes que está arquitectando. Só de tão extraordinária concentração podiam brotar as seus tão extraordinárias inventos e descobrimentos.
Lavoisier, outro dos martirizados pelo materialismo descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança científica, condenado ingrata e cegamente á guilhotina, que é o que pede aos verdugos revolucionários, seus juízes? Uma dilação de quinze dias. Só uma dilação! Só de quinze dias! Para quê? Para concluir trabalhos úteis à Humanidade, que neste momento o desconhece. Rematados eles, já não terá pena de morrer. Recusam-lha. Então, caminha, sereno, a depor no cadafalso uma cabeça, maior, talvez. que a de Arquimedes, e ainda na véspera coroada de loiros pelo Liceu.
Tanto a actividade fecundante, recolhida por instinto para os penetrais mais sagradas do ânimo, donde se conversa em êxtases com Deus e com a natureza, com o Pai Omnipotente e com a filha formosíssima, nossa irmã, fica inacessível aos maiores cataclismos externos, às catástrofes das Siracusas. ao caos, providencial, porém medonho, de uma revolução francesa!
O homem que nasce pertencente à escassa família deste naturalista, pai da química, e daquele geómetra, pai da mecânica, mesmo com os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhas fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operário; mas, abaixo dele, há ainda, não menos veneráveis, os prestigiosos cismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em última análise, menos útil que o da Ciência.
André Chénier, espécie de Lavoisier da poesia, convocado também para o festim da morte, não é das prazeres efémeras da existência que leva saudades: bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente que se lhe estava ali dentro formando, como em cérebro olímpico, uma nova musa gentilíssima. Quem lha revelara? A meditação solitária, que sabe tudo e tudo profetiza.
Boníssima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para os vales: nas tuas entranhas se filtram. dos teus recôncavos rebentam as génios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe às torrentes caudais: uma fontinha entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalizas dons, como sabre o muito; próvida para o imenso, próvida para o limitada. Solidão, Egéria das almas eleitas! Solidão, buscada por Cristo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarca, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todos as videntes, de todos as descobridores, de todos os inventores, de todos as Baptistas! Solidão, ninho das rolas como das águias, perdoa, se eu não sabia ainda apreciar-te!
(A Chave do Enigma, Cap. XL)
FELICIDADE PELA AGRICULTURA
TERCEIRO SERÃO DO CASAL
Índole campestre da Poesia
Sumário
A Poesia nasceu nos campos, e para eles propendeu sempre. – Quem Ovídio. – O seu poema dos Fastos. – Duas amostras deste poema. – Festa das sementeiras entre os Romanos. – Festa do deus Término.
Dizia-vos eu, meus camponeses, que todos os poetas deveras eram vossos amigos; não há nada mais certo.
A Poesia nasceu nos campos, e por muito tempo só conheceu esse viver viçoso e perfumado. Veio a fazer-se dama ambiciosa de mais refinadas delícias; assentou vivenda nas cidades; fez-se muito sábia, muito altiva, muito malédica, muito contraditória; ora devota, ora ímpia, ora frívola, ora profunda; mas lá os seus campos nunca se lhes desluziram da lembrança.
Em nenhuma parte a ouvireis cantar combates, viagens, descobrimentos, artes, luxo, amores, ou desejos de melhor vida para além-mundo, que lhe não fugisse um olhar de saudade para o seu paraíso de flores.
A idade de oiro, que é a sua cisma contínua, posta umas vezes no passado, outras no futuro, a idade de oiro, (que Deus sabe se é tão fabulosa como cuidam, a não ser em relação ao seu título), que era ela se não a Arcádia, o viver campestre, manso e regalado?
Livros dos mais antigos do mundo, os de Moisés e os de Homero, uns e outros mananciais de Poesia, não têm página, que nos não espelhe uns reflexos das bem-aventuranças patriarcal e heróica, que são também Arcádia, com leves modificações.
Passaram os povos antigos, com as suas religiões e usos particulares. Nos escritos que de então sobreviveram, que ê o que mais nos encanta? Não são por certo as descrições dos seus usos exclusivos, ainda para aí se atrai fortemente a curiosidade; são, sim, os toques alusivos ao viver rural, porque enfim, aí é que é o ponto de contacto de todas as idades, e de todas as civilizações. O campo é que é o centro de unidade da espécie humana.
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Se tivéssemos vagar, muito nos havíamos de entreter relendo em comum, aqui no vosso casal, alguns dos mais guapos trechos dos poemas de eras mui diversas, e países mui remotos, por onde acabaríeis de conhecer quanto o vosso trato namorou sempre aos bons engenhos. Fora leitura para cem anos bem aproveitados.
Falemos de um só autor, mas, que, pela grandeza do seu talento, vale centos.
Nasceu este na Itália, em tempo do poderio Romano, vai em dezanove séculos, e quando o latim era ainda língua viva e bizarra. Chamava-se Públio Ovídio Nasão, e era cavaleiro, ou fidalgo daquelas eras. Vivia na Corte, bem relacionado com a principal Nobreza, e mui cabido no paço dos Imperadores.
Tinha um engenho prodigioso para a Poesia; cultivou-o com os seus estudos da eloquência, com o trato dos outros poetas contemporâneos com as ciências, com as viagens à Grécia, que era a França daqueles tempos, e Atenas a sua Paris. Compôs uma quantidade de obras, que ainda existem quase todas; a maior parte amorosas e voluptuárias.
As mulheres eram para ele o maior bem do mundo; o segundo, as amenidades da Natureza (ninguém dirá que tivesse mau gosto o nosso Ovídio).
Este homem, depois de ter gozado quanto era possível da vida de Roma, de repente, e já ao descair para velho, é desterrado. E que desterro! De Itália, para a Rússia! do seio das delicias, para uma povoação bárbara, glacial, sempre em contingências de guerras! Ali se vê, longe de sua mulher, de sua filha, de seus amigos, dos campos do seu nascimento, das damas, e dos aplausos.
A causa do seu desterro é um enigma, que tem desatinado os historiadores, e a que ainda ninguém rastreou solução provável. Coisa de amores (ou seus ou alheios) deveu por certo de andar por aí. O que sabemos é que, lá no desterro, lembrando-lhe com muitas saudades tudo quanto havia perdido, nada lhe doía mais no coração, que o ver-se privado do seu quintalinho nos arrabaldes de Roma, onde outrora a mão que tão gentis coisas escrevia se deliciava, muita vez. em podar e enxertar as suas árvores.
– "Coitado de mim! – dizia ele – ainda que eu aqui me quisesse meter a lavrador, os bois desta terra não entendem latim:"
Em tal e tamanho desamparo, que até à morte lhe durou, só as Musas o não desampararam. A isso devemos duas deliciosas colecções de magoadíssimas Canas em verso, à mulher, aos amigos, a César mesmo, solicitando vir morrer onde nascera, e metade de um poema intitulado Os Fastos.
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Eram os Fastos de Ovídio uma obra em doze Livros, de que só ficaram os primeiros seis. Tinham por objecto descrever e explicar as principais festas religiosas pagãs de cada um dos doze meses; a origem arqueológica de cada uma delas; e a sua coincidência com as revoluções astronómicas.
Eis aqui o como ele propõe a totalidade do seu plano:
Festas do Lácio ano, origens suas
quais astros vão, quais vêm, dirão meus versos.
Esta obra, além de outras suas, traduzi eu; e por sinal que ofereci a tradução a um muito particular amigo dele, meu, e vosso, que é o Secretário da nossa Sociedade de Agricultura.
Há nos Fastos muitas e mui belas provas do que eu há pouco vos dizia: do amor que o bom do Ovídio tinha à vida campestre.
Amostrar-vos-ei algumas; e vá, por estreia, o final do seu mês de Janeiro.
Canta assim:
FESTA DAS SEMENTEIRAS: Ouvi-lhe agora a narração da festa, que em seu tempo se fazia no mês de Fevereiro, em honra do deus Término, ou Termo. Este deus não era mais nem menos que um marco, de pedra ou pau, que extremava os prédios. Com razão lhe davam aquele culto; nada mais respeitável, que a propriedade; nada mais judicioso, que santificá-la.
Quão grande, meus amigos, não era o Povo em que um Poeta podia dizer isto, sem medo de que o mundo, nem a posteridade, o desmentisse! E nós também, nós, os Portugueses, já houve um tempo, em que pouco menos fomos. Ouvi como o nosso Camões o cantava:
Mas em tanto que cegos, e sedentos
O AVARENTO DE MOULIÈRE
O AVARENTO ROUBADO (Vindo a gritar desde o quintal até entrar em cena, com as feições desconcertadas, e no auge do terror)
Aqui de el-rei, ladrões! Ladrões, aqui de el-rei!
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METAMORFOSES DE OVÍDIO
ESCAVAÇÕES POÉTICAS
OS TREZE ANOS
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