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FOLHAS CAÍDAS (extracto) DE ALMEIDA GARRET
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LIVRO PRIMEIRO IGNOTO DEO (D. D. D.) Creio em ti, Deus: a fé viva De minha alma a ti se eleva. És: – o que és não sei. Deriva Meu ser do Teu: luz... e treva, Em que – indistintas! – se envolve Este espírito agitado, De ti vem, a ti devolve. O Nada, a que foi roubado Pelo sopro criador Tudo o mais, o há-de tragar. Só vive do eterno ardor O que está sempre a aspirar Ao infinito donde veio. Beleza és tu, luz és tu, Verdade és tu só. Não creio Senão em ti; o olho nu Do homem não vê na terra Mais que a dúvida, a incerteza, A forma que engana e erra. Essência! a real beleza, O puro amor – o prazer Que não fatiga e não gasta... Só por ti os pode ver O que inspirado se afasta, Ignoto Deo, das ronceiras, Vulgares turbas: despidos Das coisas vás e grosseiras Sua alma, razão, sentidos, A Ti se dão, em Ti vida, E por ti vida têm. Eu, consagrado A teu altar, me prostro e a combatida Existência aqui ponho, aqui votado Fica este livro – confissão sincera Da alma que a ti voou e em ti só spera. II ADEUS! Adeus, para sempre adeus! Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora Sinto a justiça dos céus Esmagar-me a alma que chora. Choro porque não te amei, Choro o amor que me tiveste; O que eu perco, bem no sei, Mas tu... tu nada perdeste; Que este mau coração meu Nos secretos escaninhos Tem venenos tão daninhos Que o seu poder só sei eu. Oh! vai... para sempre adeus! Vai, que há justiça nos céus. Sinto gerar a peçonha Do ulcerado coração Essa víbora medonha Que por seu fatal condão Há-de rasgá-lo ao nascer: Há-de sim, serás vingada, E o meu castigo há-de ser Ciúme de ver-te amada, Remorso de te perder. Vai-te, oh! vai-te, longe, embora, Que sou eu capaz agora De te amar – Ai! se eu te amasse! Vê se no árido pragal Deste peito se ateasse De amor o incêndio fatal! – Mais negro e feio no inferno Não chameja o fogo eterno. Que sim? Que antes isso? – Ai, triste! Não sabes o que pediste. Não te bastou suportar O cepo-rei; impaciente Tu ousas a deus tentar Pedindo-lhe o rei-serpente! E cuidas amar-me ainda? Enganas-te: é morta, é finda, Dissipada é a ilusão. Do meigo azul de teus olhos Tanta lágrima verteste, Tanto esse orvalho celeste Derramado o viste em vão Nesta seara de abrolhos, Que a fonte secou. Agora Amarás... sim, hás-de amar, Amar deves... Muito embora... Oh! mas noutro hás-de sonhar Os sonhos de oiro encantados Que o mundo chamou amores. E eu réprobo... eu se o verei? Se em meus olhos encovados Der a luz de teus ardores... Se com ela cegarei? Se o nada dessas mentiras Me entrar pelo vão da vida... Se, ao ver que feliz deliras, Também eu sonhar... Perdida, Perdida serás – perdida. Oh! vai-te, vai, longe embora! Que te lembre sempre e agora Que não te amei nunca... ai! não; E que pude a sangue frio, Covarde, infame, vilão, Gozar-te – mentir sem brio, Sem alma, sem dó, sem pejo, Cometendo em cada beijo Um crime... Ai! triste, não chores, Não chores, anjo do céu, Que o desonrado sou eu. Perdoar-me tu?... Não mereço. A imundo cerdo voraz Essas pérolas de preço Não as deites: é capaz De as desprezar na torpeza De sua bruta natureza. Irada te há-de admirar, Despeitosa, respeitar, Mas indulgente... Oh! o perdão É perdido no vilão, Que de ti há-de zombar. Vai, vai... para sempre adeus! Para sempre aos olhos meus Sumido seja o clarão De tua divina estrela. Faltam-me olhos e razão Para a ver, para entendê-la: Alta está no firmamento Demais, e demais é bela Para o baixo pensamento Com que em má hora a fitei; Falso e vil o encantamento Com que a luz lhe fascinei. Que volte a sua beleza Do azul do céu à pureza, E que a mim me deixe aqui Nas trevas em que nasci, Trevas negras, densas, feias, Como é negro este aleijão Donde me vem sangue às veias, Este que foi coração, Este que amar-te não sabe Porque é só terra – e não cabe Nele uma ideia dos céus... Oh! vai, vai; deixa-me, adeus! III QUANDO EU SONHAVA Quando eu sonhava, era assim Que nos meus sonhos a via; E era assim que me fugia, Apenas eu despertava, Essa imagem fugidia Que nunca pude alcançar. Agora que estou desperto, Agora que a vejo fixar... Para quê? – Quando era vaga, Uma ideia, um pensamento, Um raio de estrela incerto No imenso firmamento, Uma quimera, um vão sonho, Eu sonhava – mas vivia: Prazer não sabia o que era, Mas a dor não na conhecia... ............................................. V O ANJO CAÍDO Era um anjo de Deus Que se perdera dos céus E terra a terra voava. A seta que lhe acertava Partira de arco traidor, Porque as penas que levava Não eram penas de amor. O anjo caiu ferido E se viu aos pés rendido Do tirano caçador. De asa morta e sem esplendor O triste, peregrinando Por estes vales de dor, Andou gemendo e chorando. Vi-o eu, n anjo dos céus, O abandonado de Deus, Vi-o, nessa tropelia Que o mundo chama alegria, Vi-o a taça do prazer Pôr ao lábio que tremia E só lágrimas beber. Ninguém mais na terra o via, Era eu só que o conhecia Eu que já não posso amar! Quem no havia de salvar? Eu, que numa sepultura Me fora vivo enterrar? Loucura! Ai, cega loucura! Mas entre os anjos dos céus Cantava um anjo ao seu Deus; E remi-lo e resgatá-lo, Daquela infâmia salvá-lo Só força de amor podia. Quem desse amor há-de amá-lo, Se ninguém o conhecia? Eu só, – e eu morto, eu descrido, Eu tive o arrojo atrevido De amar um anjo sem luz. Cravei-a eu nessa cruz Minha alma que renascia, Que toda em sua alma pus, E o meu ser se dividia, Porque ela outra alma não tinha, Outra alma senão a minha... Tarde, ai! tarde o conheci, Porque eu o meu ser perdi, E ele à vida não volveu... Mas da morte que eu morri Também o infeliz morreu. VIII ESTE INFERNO DE AMAR Este inferno de amar – como eu amo! – Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi? Esta chama que alenta e consome, Que é a vida – e que a vida destrói – Como é que se veio a atear, Quando – ai quando se há-de ela apagar? Eu não sei, não me lembra: o passado, A outra vida que dantes vivi Era um sonho talvez... – foi um sonho – Em que paz tão serena a dormi! Oh! que doce era aquele sonhar... Quem me veio, ai de mim! despertar? Só me lembra que um dia formoso Eu passei... dava o sol tanta luz! E os meus olhos, que vagos giravam, Em seus olhos ardentes os pus. Que fez ela? eu que fiz? – Não no sei; Mas nessa hora a viver comecei... X GOZO E DOR Se estou contente, querida, Com esta imensa ternura De que me enche o teu amor? – Não. Ai não; falta-me a vida; Sucumbe-me a alma à ventura: O excesso do gozo é dor. Dói-me alma, sim; e a tristeza Vaga, inerte e sem motivo, No coração me poisou. Absorto em tua beleza, Não sei se morro ou se vivo, Porque a vida me parou. É que não há ser bastante Para este gozar sem fim Que me inunda o coração. Tremo dele, e delirante Sinto que se exaure em mim Ou a vida – ou a razão. XVI OS CINCO SENTIDOS São belas – bem o sei, essas estrelas, Mil cores – divinais têm essas flores; Mas eu não tenho, amor, olhos para elas, Em toda a natureza Não vejo outra beleza Senão a ti – a ti! Divina – ai! sim, será a voz que afina Saudosa – na ramagem densa, umbrosa. Será; mas eu do rouxinol que trina Não oiço a melodia, Nem sinto outra harmonia Senão a ti – a ti! Respira – n' aura que entre as flores gira, Celeste – incenso de perfume agreste. Sei... não sinto, minha alma não aspira, Não percebe, não toma Senão o doce aroma Que vem de ti – de ti! Formosos – são os pomos saborosos, É um mimo – de néctar o racimo: E eu tenho fome e sede... sequiosos, Famintos meus desejos Estão... mas é de beijos, É só de ti – de ti! Macia – deve a relva luzidia Do leito – ser por certo em que me deito. Mas quem, ao pé de d, quem poderia Sentir outras carícias, Tocar noutras delícias Senão em ti – em ti! A ti! ai, a ti só os meus sentidos, Todos num confundidos, Sentem, ouvem, respiram; Em ti, por ti deliram. Em ti a minha sorte, A minha vida em ti; E quando venha a morte, Será morrer por ti. |
Seus olhos – se eu sei pintar
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