ORFEU SPAM APOSTILAS
Martins Fontes (1884-1937)
SALOMÉ
Paráfrase de Catulle Mendès
Ora, em Makéros, perto da
terra sagrada de Judá,
num dia do mês de Schebat,
o tetrarca da Galiléia,
filho de Herodes da Iduméia,
reúne, em fúlgida assembléia,
Vitélio e vários dentre os seus
homens e amigos galileus,
e os sacerdotes do seu Deus,
e honra o procônsul dos romanos,
dando um banquete aos soberanos,
no dia egrégio dos seus anos.
A sala imensa do festim
é toda feita de algumim,
tauxiado de ouro e de marfim.
A mesa augusta ergue-se ao lado,
e assenta sobre um largo estrado,
que é de sicômoro lavrado.
Turbando as chamas e os metais,
sobem as fúmeas espirais
dos incensários aromais.
Brilham os sifos dos convivas,
e altas crisêndetas festivas,
cheias de figos e de olivas.
Vêem-se amêndoas de Belém,
e as áureas ânforas contém
os vinhos róseos de Sichém.
Pela extensão da mesa nobre,
por entre palmas, se descobre
a neve em cíatos de cobre.
Servem-se polmes de açafrol,
romãs e tâmaras de Esquol,
bolos de melro e rouxinol.
Em cismas lúgubres absorto,
Antipas vê, de longe, o porto,
tranquilo e triste, do mar Mar Morto.
E ao cismar enche-se de
sombras horríficas, porque
a morte próxima prevê.
Contudo, às vezes conversando,
disfarça as mágoas; porém, quando
vai o banquete terminando,
o velário de um pavilhão
se abre; Herodias, no salão,
surge, entre anêmonas, então,
e erguendo a patera florida,
diante da sala comovida,
declama: -"A César, longa vida!"
É nesse instante triunfal,
exatamente no final
do ágape esplêndido e fatal,
que, do fundo das galerias,
num incêndio de pedrarias,
desponta a filha de Herodias
e ao som de mandora e cinor,
num flavescente resplendor
de gemas de Sirinagor,
entre os aplausos do delírio
virgem e leve, como um lírio,
entra dançando ao modo assírio.
Fascinadora, Salomé
levanta o véu, que desce até
à asa recurva do seu pé.
E em torcicolos coleantes,
e, na volúpia das Bacantes,
tine as crotálias ressoantes.
Ri-se, e, na dança, tem o dom
de deslumbrar, variando com
a ondulação de cada som.
Gira em volteios colubrinos,
lentos, elásticos, felinos,
ao retumbar dos tamborins,
Em tentadora inebriez,
mostra a morena calidez,
doirada e bíblica, da tez.
A Antipas chega-se, e recua...
Ascende aos poucos, e flutua,
maravilhosa e seminua.
Avança e foge, e vem e vai,
ondula, e ala-se, e recai
em posição de quem atrai.
Seu corpo nimba-se envolvido
por um translúcido tecido,
que é como um fluido colorido.
No desvario que a seduz,
as mil imagens reproduz
da flor, dos pássaros, da luz!
Arfam na graça dos coleios,
nos rodopios e meneios,
os pomos pulcros dos seus seios.
Ante o seu mágico poder,
diz-lhe o tetrarca, sem conter
o entusiasmo do prazer:
-"Pede-me tudo o que quiseres!
Qual a província que preferes,
flor luminosa entre as mulheres?
-"Tu és tão bela que nenhum
prêmio te paga! E só por um
beijo, eu te dou Cafarnaum!"
E ela, infantil, em voz que freme,
assim lhe diz: -"Dá-me em estreme..."
Murmura um nome... E Herodes treme!
Pede que não, e exora... Mas
a sala ordena, pertinaz:
-"Tu prometeste, - e tu darás."
Depois, num grande prato de ouro,
entre as aclamações em coro,
com os olhos úmidos de choro,
nas mãos de um fâmulo idumeu,
diante do povo galileu,
de Iaokanaã apareceu,
bruta, a cabeça ensanguentada,
que, pelo gume de uma espada,
fora do tronco separada.
Da sua pápebra, a fulgir,
como uma hidrófana de Ofir,
vê-se uma lágrima a cair.
Ante essa lágrima tristonha,
Herodes julga a voz medonha
ainda escutar, como quem sonha...
Ouve dizer-lhe Iaokanaã:
-"Tetrarca impuro, avida é vã,
e a tua amante é tua irmã!"
Serena a lágrima resvala,
tremula e cai. E toda a sala,
cheia de espanto e horror, se cala.
Mas Salomé, flor de Engadi,
ao Precursor, num frenesi,
diz -"Por que choras?" - E sorri.
E ele responde: -" A causa desta
última lágrima funesta,
é ter chegado tarde à festa...
"Pois me fizeste, a meu pesar,
por tanto tempo demorar,
Que não te pude ver dançar..."
A Água Toda Secou até nos Olhos
— Meu culto ao Ceará, Coração do Brasil.
O rio vai morrer, sem que nada o socorra,
sem que ninguém, jamais, bendiga o moribundo.
Morre na solidão, no silêncio profundo,
e o malárico mal o mantém em modorra.
A enfermidade faz que da boca lhe escorra
o limo, feito fel, viscoso e nauseabundo.
E o terror se lhe vê das órbitas ao fundo.
Paralítico jaz na estreitez da masmorra.
Tu só, tu, meu Irmão, que a miséria não vence.
Que suportando a sede, a fome, a febre, o frio,
sem que prêmio nenhum teu martírio compense.
Poeta, herói, semideus, sabes o desvario,
a sobre-humana dor, a bravura, cearense,
de quem se suicidou, vendo morrer o rio.
Balada Madrigalesca
À moda clássica, ao sabor
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.
Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.
Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.
OFERTA
Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...
Inocência
Criança ingênua, o dia inteiro,
com os meus caniços de taquara,
ficava eu, ao sol de então,
junto dos tanques, no terreiro,
soprando a espuma, leve e clara,
fazendo bolhas de sabão.
Corando a roupa, entre cantigas,
as lavadeiras, que passavam,
interrompiam a canção...
Riam-se as pobres raparigas,
vendo as imagens que brilhavam,
nas minhas bolhas de sabão.
Cresci. Sofri. Sonhando vivo.
E, homem e artista, ainda agora,
me apraz aquela distração...
E fico, às vezes, pensativo,
fazendo versos, como outrora
fazia bolhas de sabão.
E velho, um dia, de repente,
sem ter, de fato, sido nada,
pois tudo é apenas ilusão,
há de extinguir-se a alma inocente
que em mim fulgura, evaporada
como uma bolha de sabão.
Monotonia Rítmica
BORODIN
Era uma noite negra, horrendamente negra,
Horrendamente negra,
como o corvo do Poe, horrendamente negra.
Eu tremia, a gelar, na solidão goiesca,
na solidão goiesca,
inteiramente só, na solidão goiesca.
Nisto, vejo surgir um lívido fantasma.
um lívido fantasma,
um hamlético e longo e lívido fantasma.
Retransido, sem voz, perguntei com os olhos,
perguntei com os olhos,
quem és tu, quem és tu! — perguntei com os olhos —
E o avejão respondeu: — Eu simbolizo o Nada!
— Eu simbolizo o Nada!
E desapareceu... — Eu simbolizo o Nada!
Na Medida Velha da Ensinança Galante e da Gaia Ciência de Bem Trovar
Menina Briolanja
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.
És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.
À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.
Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.
É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.
Otelo
Quem minha angústia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
(Apostila 14 de Simbolismo - Literatura Brasileira)