ORFEU SPAM APOSTILAS
LUÍS DELFINO (1834-1910)
Altar sem Deus
Inda não voltas? — Como a vida salta
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
A Primeira Lágrima
Quando a primeira lágrima caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,
Que anjos e Tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e d'ouro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.
Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha.
E ante o rumor dos ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, Pasmados..
Eva
Surge Adão: Eva após; Deus os exorta.
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.
A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.
Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;
Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem
A Sede de Padixá
À noite o Padixá raríssimos instantes
Furta ao labor imperial: dorme sob o crescente,
Na verdura, Istambul; arfa a aragem do oriente...
Voa à vela o caíque em ondas de diamantes.
Leva só velho eunuco, e a escrava adolescente,
Nua... quase em nudez, as formas deslumbrantes,
Cantando à harpa tricorde uma canção dolente,
Que faz ver, como um sonho, as mesquitas distantes.
Num descuido de harém, numa graça felina,
-Ouves? Quero beber o céu, Abdul dizia;
-Que ouço: e estendendo a mão branca, comprida, e fina,
ela, por não lhe dar o que no olhar lhe ria,
perfidamente meiga, em taça bizantina
dava-lhe o céu, que em fogo o Bósforo acendia...
A Sultana
Foi festa, e grande, em toda a Cachemira
Quando chegou, montada no elefante...
Viu-se em leve sandália de safira
O seu pé de uma alvura deslumbrante;
Colhendo as sedas, sua mão ferira
Com luz nevada a multidão, diante
Da qual o rosto apenas descobrira
Na sombra do riquíssimo turbante;
Mas quando viram seus nevados seios,
Brancos, riscados de azulados veios,
C’roados de uma auréola de cabelos,
-tênues fios de estrela que irradia...
para não ofendê-la à luz do dia
fugiram dela ao trote dos camelos.
O Deus do Silêncio
Não sei por que; porque dizer não ouso:
Seguindo estância e estância o antigo rito,
No templo de Ísis, adorava o Egito
O deus sem voz, o deus misterioso.
Milhões d’olhos de um valo olhar aflito
Cobrem-lhe o corpo; e em lânguido repouso,
Guardando um gesto altivo e desdenhoso,
Pousava à boca um dedo de granito.
E como um olho só, tudo isso olhava
Do fundo de uma orelha, que o envolvia:
E aos pés vendo a turba imbele e escrava,
O mudo olhar inquieto ardia em lava...
Porém... quanto mais via, e mais ouvia,
Menos falava o deus que não falava...
(Apostila 2 de Parnasianismo - Literatura Brasileira)