ORFEU SPAM APOSTILAS
Murilo Mendes
(Juiz de Fora MG, 1901 - Lisboa Portugal, 1975)
Estudou no Colégio Salesiano, em Niterói RJ, no final da década de 1920. Iniciou o curso de Direito, mas não o concluiu. Na década de 1920, foi arquivista no Ministério da Fazenda e empregado do Banco Mercantil. Publicou seu primeiro livro, Poemas, em 1930; no ano seguinte recebeu o prêmio de Poesia Graça Aranha. Em 1934, converteu-se ao catolicismo; a religiosidade é um dos temas mais marcantes de sua obra. Em 1935, foi secretário da Comissão de Literatura para a Infância do Ministério da Educação e inspetor federal de ensino médio. Entre 1957 e 1975 lecionou Cultura Brasileira na Universidade de Roma (Itália). Publicou, em 1968, o livro de memórias A Idade do Serrote. Em 1977 ocorreu a publicação póstuma de Ipotesi, livro de poesia escrito originalmente em italiano, organizado por Luciana Stegagno Picchio, em Roma. Sua obra poética inclui os livros Tempo e Eternidade (1935), escrito com Jorge de Lima, A Poesia em Pânico (1938), Visionário (1941), Mundo Enigma (1944), Tempo Espanhol (1964), Poliedro (1972), entre outros. Murilo Mendes é um dos principais nomes da segunda geração do Modernismo. O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu, sobre ele: "Peregrino europeu de Juiz de Fora,/ telemissor de murilogramas e grafitos,/ instaura na palavra o seu império.".
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Modinha do empregado de banco
Canção do Exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
Fico
Eu fico, pois não, Se a todos dou bem. Preparem as mulatas, Recheiem os p’rus, Avisem os banqueiros, Suprimam os chuveiros, Me comprem mercúrio, Afinem as garrafas, Previnam o Chalaça, Aprontem o troley, Eu fico, mas vou Falar com a Marquesa, Já volto pra ceia. Falando em comidas Eu fico, pois não.
Soneto do Dia 15
Seu Deodoro, tem gente, Mas já sai agora mesmo. Pensa que não tenho sangue? Eu tenho sangue, mas frio.
Cedo o império brasileiro Ao dito das circunstâncias. Só levo daqui saudades. Justiça aguardo de Deus.
Pensão não quero, obrigado. Tratem bem de meus moleques. Estou fazendo um soneto:
O papel está acabando, Chego já no último verso, Já lhe cedo o meu lugar.
Canto a García Lorca
Não basta o sopro do vento
Elegia de Taormina
A dupla profundidade do azul
São Francisco de Assis de Ouro Preto
Ao Aleijadinho
É nossa própria forma, o frio molde
O EXILADO
Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo. Os sentidos em alarme gritam: O demônio tem mais poder que Deus. Preciso vomitar a vida em sangue Com tudo o que amaldiçoei e o que amei. Passam ao largo os navios celestes E os lírios do campo têm veneno. Nem Job na sua desgraça Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos E a multidão me apontando como o falso profeta. Espero a tempestade de fogo Mais do que um sinal de vida.
AQUARELA
Mulheres sólidas passeiam no jardim molhado de chuva, o mundo parece que nasceu agora, mulheres grandes, de coxas largas, de ancas largas, talhadas para se unirem a homens fortes.
A montanha lavada inaugura toaletes novas pra namorar o sol, garotos jogam bola. A baía arfa, esperando repórteres... Homens distraídos atropelam automóveis, acácias enfiam chalés pensativos pra dentro das ruas, meninas de seios estourando esperam o namorado na [janela, estão vestidas só com um blusa, cabelos lustrosos saídos do banho e pensam longamente na forma do vestido de noiva: que pena não ter decote! Arrastarão solenemente a cauda do vestido até a alcova toda azul, que finura! A noite grande encherá o espaço e os corpos decotados se multiplicarão em outros.
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Grafito numa Cadeira
Cadeira operada dos braços
Guernica
Subsiste, Guernica, o exemplo macho,
O filho do século
Joan Miró
Soltas a sigla, o pássaro, o losango.
Murilograma a Graciliano Ramos
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METADE PÁSSARO
A mulher do fim do mundo Dá de comer às roseiras, Dá de beber às estátuas, Dá de sonhar aos poetas.
A mulher do fim do mundo Chama a luz com um assobio, Faz a virgem virar pedra, Cura a tempestade, Desvia o curso dos sonhos, Escreve cartas ao rio, Me puxa do sono eterno Para os seus braços que cantam. O Fósforo
Acendendo um fósforo
FORMIDÁVEL
FORMIDÁVEL FORMADÁVEL FORMADOVE FORMADOVO FORMADOVEL FORMIDÁBLIU FORMIDÁCTIL FORMITÁCTIL FORMIDANÇA FORMADANÇA FORMIDEDO FORMIDENDO FORMIDADO FORMIDOIDO FORMIDOÍDO FORMIDONDO FORMOFILO FORMOFOBO FORMIAUDÍVEL FORMIVÁVEL FORMIGÁVEL FORMIDÁVEL
Palavras Inventadas (Em Forma de Tandem)
Ardêmpora neclauses Bisdrômena guevolt Canéstrofa trapesso Desdômetro fanúria Ervêmera valdert Ferdúmetri beliús Glamífero glavencs Hedvâmpero notraut Irglêmone pantêusis Jirtófelo jivórnea Kastrúnfera vidrolt Lirtêmola dergalt Mirpólita corvecs Normúfilo zemiltz Orgântula vernodr Pordênola punerv Quervídrola forguenz Rindáutera norlun Sernôfelant obcúrima Terrábile viednon Urtêmbrola regrit Vercábuero tanélia Xisdêrdalo verdinktra Zedráufila perclômeno
POEMA BARROCO
Os cavalos da aurora derrubando pianos Avançam furiosamente pelas portas da noite. Dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos, Dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de [atrizes.
O poeta calça nuvens ornadas de cabeças gregas E ajoelha-se ante a imagem de Nossa Senhora das Vitórias Enquanto os primeiros ruídos de carrocinhas de leiteiros Atravessam o céu de açucenas e bronze.
Preciso conhecer meu sistema de artérias E saber até que ponto me sinto limitado Pelos sonhos a galope, pelas últimas notícias de massacres, Pelo caminhar das constelações, pela coreografia dos [pássaros, Pelo labirinto da esperança, pela respiração das plantas, E pelo vagido da criança recém-parida na Maternidade.
Preciso conhecer os porões de minha miséria, Tocar fogo nas ervas que crescem pelo corpo acima, Ameaçando tapar meus olhos, meus ouvidos, E amordaçar a indefesa e nua castidade. É então que viro a bela imagem azul-vermelha: Apresentando-me o outro lado coberto de punhais, Nossa Senhora das Derrotas, coroada de goivos, Aponta seu coração e também pede auxílio.
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Noite Carioca
Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa.
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos criouléus suarentos
O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.
Saudação a Ismael Nery
Acima dos cubos verdes e das esferas azuis
um Ente magnético sopra o espírito da vida.
Depois de fixar os contornos dos corpos
transpõe a região que nasceu sob o signo do amor
e reúne num abraço as partes desconhecidas do mundo.
Apelo dos ritmos movendo as figuras humanas,
solicitação das matérias do sonho, espírito que nunca descansa.
Ele pensa desligado do tempo,
as formas futuras dormem nos seus olhos.
Recebe diretamente do Espírito
a visão instantânea das coisas, ó vertigem!
penetra o sentido das idéias, das cores, a tonalidade da Criação,
olho do mundo,
zona livre de corrupção, música que não pára nunca,
forma e transparência.
O MENINO EXPERIMENTAL
O menino experimental come as nádegas da avó e atira os ossos ao cachorro.
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O menino experimental futuro inquisidor devora o livro e soletra o serrote.
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O menino experimental não anda nas nuvens. Sabe escolher seus objetos. Adora a corda, o revólver, a tesoura, o martelo, o serrote, a torquês. Dança com eles. Conversa-os.
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O menino experimental ateia fogo ao santuário para testar a competência dos bombeiros.
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O menino experimental, declarando superado o manual de 1962, corrige o professor de fenomenologia.
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O menino experimental confessa-se ateu e à-toa.
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O menino experimental é desmamado no primeiro dia. Despreza Rômulo e Remo. Acha a loba uma galinha. No tempo do oco pré-natal gritava: “Champagne, mamãe! Depressa!”
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O menino experimental decreta a alienação de Aristóteles. Expulsa-o da sua zona, só com a roupa do corpo e amordaçado.
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O menino experimental repele as propostas da prima de dezoito anos chamando-a de bisavó.
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O menino experimental escondendo os pincéis do pintor e trancando-o no vaso sanitário, obriga-o a fundar a pop art, única saída do impasse.
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O menino experimental ensina a Vamp a amar. Dorme com o radar debaixo da cama.
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O menino experimental, dos animais só admite o tigre e o piloto do bombardeio. Deixa o cão mesmo feroz e o piloto civil às pulgas.
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O menino experimental benze o relâmpago.
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O menino experimental antefilma o acontecimento agressivo, o Apocalipse, fato do dia.
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O menino experimental festeja seu terceiro aniversário convidando Jean Genet e Sofia Loren para jantar. Espetados na mesa três punhais acesos.
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O menino experimental despede a televisão, “brinquedo para analfabetos, surdos, mudos, doentes, antinietzsches, padres, podres, croulants”.
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O menino experimental atira uma granada em forma de falo na mãe de Cristóvão Colombo, sepultado nas Américas.