ORFEU SPAM APOSTILAS
Jorge de Lima
(União dos Palmares AL 1895)
Iniciou, em 1911, a faculdade de Medicina, em Salvador BA, concluindo-a em 1915, no Rio de Janeiro. Elegeu-se Deputado Estadual pelo Partido Republicano de Alagoas (1926) e vereador pela UDN (1946), assumindo a Presidência da Câmara dois anos depois. Iniciou-se, de maneira autodidata, nas artes plásticas, em 1940, no Rio de Janeiro. Em 1943, publicou o álbum de fotomontagens intitulado A Pintura em Pânico, com prefácio de Murilo Mendes, no Rio de Janeiro. Em paralelo a essas atividades, dedicou-se à literatura, tendo escrito, dentre outros, os livros: O Mundo do Menino Impossível (1925), Novos Poemas (1930), Tempo e Eternidade (1935), A Túnica Inconsútil (1938), Poemas Negros (1947) e Invenção de Orfeu (1952). Foi homenageado com o Grande Prêmio de Poesia (1940), concedido pela Academia Brasileira de Letras. A poesia de Jorge de Lima vincula-se à segunda geração do Modernismo. Sobre sua obra, afirmou a crítica Nise da Silveira: "o poeta Jorge de Lima, na primeira fase de sua produção poética, fala-nos de coisas conhecidas que o leitor prontamente apreende. A forma será o soneto, o alexandrino, ou mesmo o verso livre, o pensamento, porém, é de tipo discursivo. (...) Depois que adotou o verso livre, a poesia despojou-se de procedimentos retóricos, tornou-se íntima. Os temas preferidos são cenas da infância do poeta e motivos regionais. A poesia é sempre de alta qualidade.".
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Invenção de
Orfeu Canto III Poemas relativos I Caída a noite o mar se esvai, aquele monte desaba e cai silentemente. Bronzes diluídos já não são vozes, seres na estrada nem são fantasmas, aves nos ramos inexistentes; tranças noturnas mais que impalpáveis, gatos nem gatos, nem os pés no ar, nem os silêncios. O sono está. E um homem dorme. II Queres ler o que tão só se entrelê e o resto em ti está? Flor no ar sem umbela nem tua lapela; flor que sem nós há. Subitamente olhas: nem lês nem desfolhas; folha, flor, tiveste-as. E nem as tocaste: folha e flor. Tu - haste, elas reais, mas réstias. III qualquer voz alou-se muito desejada. Branco fosse o espaço e ela ardente cor. Quis o espaço a voz a voz veio e ampliou-o. Mas se não houvesse propriamente voz... Vamos nós supô-los: dois sem seus sentidos. Desejemos mesmo dois incompreensíveis. Bom nos ecoarmos na voz recebida. E o espaço esvaziado povoá-lo de vez. Amá-los tão sem amada presença, só com o coração sem correspondência, só com a vocação do verso feliz. IV Numas noites chegamos à janela, e as mandíbulas do ar tanto nos roem, que os leitos rotos logo deliqüescem com os nossos corpos complacentemente. Certos dias olhamos o sol claro; e a boca hiante das cores nos devora carnes e sangues, poeiras de costelas, que ficamos inúteis, sem matéria. Essas bocas nos sugam noite e dia, vigiando dia e noite nossas vidas um minuto no espaço, menos que ai de chumbo soluçado nos silêncios, ou cal de fome longa, revelada, na noite igual ao dia, de tão gêmeos. V Agora o sem senso sorriso nos ares, minha alma perdida, os vales lá embaixo de minhas lonjuras de não existido, parado nos antes, nem sei de pecados, nem sei de mim mesmo, eu mesmo não sou nem nada me vê; ausentes palavras não soam no vácuo dos antes das coisas, das coisas sem nexo, nem fluidos. Só o Verbo chorando por mim. VI Agora, escutai-me que eu falo de mim; ouvi que sou eu, sou eu, eu em mim; tocai esses cravos já feitos pra mim, suores de sangue, pressuados sem poros verônica herdada. sem face do ser. Embora; escutai-me, que eu falo com a voz inata que diz que a voz não é essa que fala por mim, talvez minha fala saída de ti. VII Alegria achareis neste poema como poema ilícito, como um corpo casual ou vão, como a memória dura e acídula, como um homem se conhece respirando, ou como quando se entristece sem causa ou se doente, ou se lavando sempre ou comparando-se às dimensões das coisas relativas; ou como sente os ombros de seu ser, transmitidos e opacos, e os avós responsabilizando-se presentes. São alegrias rápidas. Lugares, reencontrados países, becos, passos sob as chuvas que não vos molharão. VIII Se falta alguém nesses versos pele vento interminável, pelas arenas de estátuas, sucedam-lhe os cegos olhos sacudidos pelos medos, mãos de chuvas lhe inteiricem o corpo com algas remissas e com matérias tranqüilas tão soturna como os poços, exasperados invernos, ombros de escova comida, as asas secas caídas, ante seus netos calados; e incorporem-se a esse alvitre esse sabor de cortiça, essas esponjas morridas, essas marés estanhadas, essas escunas de espáduas estritamente fechadas como casas de abandono, restringem-se os conciliábulos, certos sigilos de pez, certas coisas enlutadas, refúgios, dramas ocultos, pois as rosas são de trapos e os fios menos que teias, menos que finos agora, e as camisas sem os pêlos enterrados nas ilhargas, vestem enganos e punhos e crimes em vez de adegas, mas tudo em vão, mesmo as plumas, mesmo os ausentes e as vozes aderidas a fragmentos aí moram degredadas, listrando as grades, de faces que não conhecem espelhos IX Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos E flores despenteadas, flores largas e a barbárie e inconfidentes quase abominadas dos corpos. por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade do espírito Lírios eram pilares de cristal sob o cerco subindo para as aves; então dardos da matéria. desceram sobre os mais amados colos cantando amor com seus sentimentos. Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu sei de cor os rebanhos, e olho o mundo. Tudo contém pequenas doces máscaras. Mas da selva selvagem desce o pranto dos que mastigam suas próprias fomes, sem saliva de pão, e o gosto ausente. Ninguém consegue assim amar os lírios. E esse amor é amaríssimo e adstringente com a memória das dores engolidas. X Vós não viveis sozinhos os outros vos invadem felizes convivências agregações incômodas enfim ambientalismos, e tudo subsistências e mais comunidades; e tantas ventanias acotovelamentos, desgastes de antemão, acréscimos depois, depois substituições, a massa vos tragando, as coisas vos bisando; os hábitos, os vícios, as moças embutidas mudando vossas cartas; sereis administrados no sono e nos pecados, vós mapas e diagramas com várias delinqüências, e insanidades várias, dosando o vosso espaço, pesando o vosso pão de tempos racionados; e não tereis vivido e não tereis amado, porém sereis morrido. XI Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime? Clodoveu ou Clodovigo? Éreis vós por acaso eles? Éreis vós aqueles nomes, estes, e os demais já mortos, os mortos tão renovados nós mesmos sempre chamados Lútero, Lotário, otário, sim otário tão singelo, tão puro de todo o mal, relativo, universal. Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime? Dizei-me se acaso vós éreis eles ou voz sou de algum avo tão otário, tão eu mesmo como voz, como poema de outros vários. XII O simples ar de uma só corda em curta raia, mão de menino, punhado escasso, ar perfumado, sem o alvoroço dos vendavais; anjo acolhido em róseo céu abrigo instante, pranto lavado, chorar em ti de arrependido, subir teus vales, amar teu pólen, nunca escapar-me de tuas pétalas cair com elas. XIII Uma janela aberta e um simples rosto hirto, e que provavelmente nela se debruçou; e nesse gesto puro do rosto na janela estava todo o poema que ninguém escutou; só a janela aberta e o espaço dentro dela que o tempo atravessou. XIV O contro era um dia, um dia futuro, e dentro do dia incluído o conforme, e dentro o que foi porque fora isso se tal não se dera, se o mundo parasse e o espaço se excluísse; se a pedra não fosse o símbolo que era pois tudo era um dia, um dia sem dia, porém com o poeta que um dia seria. XV De manhã estrelas verdes na inocência do ar coleado, intranqüilas e veementes. Ao zênite e areia em sede, asas das hastes pendidas, as nuvens-castelas altas como painas amealhadas. De tarde a visão das velas, nuvens baixas sobre as verdes rosas das hastes fictícias; os desejos dissolvidos repousam abertamente; e esse deserto de vozes e estes cabelos perenes de seus nervos para os dramas. Mas se as palmas fossem isso, as fontes seriam pratas, e as pratas seriam o puro sonho de quem vive. Todavia o sonho é como as palmas dessas palmeiras. Eis as palmas. XVI Os dois ponteiros rodam e rodam, mostrando o horário irregular. Horas inteiras despedaçadas, horas mais horas desmesuradas. Com seu compasso, lá vem a morte pra teu transporte, e com os dois braços: esta é tua hora, levo-te agora. XVII Um te exalou nessa incidência: céu, terra, mar; impermanência. Outro te andou te indo e te vindo pra te juntares, te convergindo Quem te volou, esse te deu o sono no ar. Esse te entoou e te nasceu sem te acordar. XVIII No dia seguinte: chamamos de terra, o poema te leva te dana, te agita, te vinca de cruzes, te envolve de nuvens. Quem sabe aonde vai parar no outro dia? XIX Roteiros vencidos compassam a festa: a noiva está fria no véu lamentado. Três potros desfraldam-se três faces transcorrem no coche morrido, em vão galopado. O nome do noivo? O nome da noiva? O nome do diabo? Três nomes corridos, três sombras penadas no drama calado. XX Aqui e ali me encontrareis, entre um poema ou em seu curso, além e aquém, oculto e claro, vivo ou demente, ou mesmo morto, ou renascido como meu sósia, intermitente, ferida tórpida. pulso de febre, nesse cavalo, naquela tinta, naquele poema quase alicerce, quase esse infante, esse anjo surdo. Ia esquecendo: eu e meu sósia somos momentos entrelaçados. Ei-lo veemente volta a seu palco, sobe a uma origem, desce de novo, envolto ou nu, esse homem gêmeo, jamais verdugo, mas palma incerta, sendo meu pai, meu filho e neto e aquele longe porém limiar, malgrado e clâmide aberta e alípede, foi argonauta, podia se-lo se esse jacinto não fosse canto, canto de galo crepuscular, profusamente cedo se oculta por essas laudas sem perceber seu fácil ímpeto ante a palavra visualizada; mas de repente desaparece. Agora eu surjo naquela esquina, naquele pórtico falam de mim; ouço transido esses vocábulos desconhecidos, emerjo em rios que vão passar, mergulho em rumos acontecidos, sucedo em mim, depois vou indo fundo e arrastado na correnteza que é de repentes. Morto incorrupto guardo meus naipes mais pressentidos, intercadentes, desordenados, não há atavios, não há disfarces, dissolução dos prantos largos manando laivos, lanhando aspectos; desacredito-me perante os leves, nem sabedor de alas longevas, se o porvindouro é puro exórdio precocemente desencantado; se os seus presságios remanescidos, salvo-condutos manifestados; correm desvios vulgares trilhos, que todavia prossigo em mim, minha progênie, uns dementados, outros co-réus, reconciliando-me com os mutilados e este glossário que é de meu sósia; abastecido alego dores, crescentes cargas; me patenteio, fico exaltado sem parecer; depois me espreito na curva adiante, simbolizado, metade em mim inda nascendo, a outra metade superlotada; então me sano excluindo as nucas executáveis; não evidentes nem aberrante me envolvo de alma, doce alimária com alguns anexos aparelhados para colher belas paisagens e outros petrechos do sósia amado; quero sofrer-me, quero imitar-me, fico empunhado meu corpo no ar, dependurado, meio aderido a alguns palhaços insimulados, portanto, instáveis, muito insossos, muitos até beatificados; ventos corteses bem-parecidos vêm agitar nosso espantalho, enquanto as aves canoramente se desaninham de nossos braços, ossos atados a chão deitados, chãos contestados por figadais, mas afinal chãos estrelados de algumas plantas ambicionadas por umas moças que andando sós se despetalam e virar brisas, fagueiras asas, pelas janelas passam nos vidros, vão aos relógios param os cucos, e a vila fica inteiriçada. dormindo dentro desse poema recomeçado por novo sósia. XXI As portas finais, os cantos iguais, os pontos cardeais, sempre obsidionais. Os tempos anuais, as faces glaciais, as culpas filiais sempre obsidionais. Os dois iniciais, as dores tais quais, os juízos finais sempre obsidionais. XXII Era uma vinda, dadas as luzes, dadas as faces que ali se achavam, nenhuma espúria, nenhuma enferma, dadas as cores, dadas as falas que ali se achavam; dadas as provas dessas presenças deu-se o milagre em aços doces, em gumes brandos em chamas graves; formou-se um gênio pentangular que começava com a estrela Vésper, riscando a noite sem se acabar; formou-se um lírio na suave treva, gerou-se um grito de tantas vozes, criou-se um fogo correspondente, jorrou-se um pranto desabitado. Era uma tarde: ninguém sabia o que no mundo ia acabar. Sei que houve portas escancaradas, sei que houve apelos antiencarnados. E houve um dilúvio, mas era um fogo desabrochado. |
XVIII
mas desejamos, qualquer coisa
Essa negra fulô
Inverno
Mulher proletária
O grande desastre aéreo de ontem
O Grande Circo Místico O médico de câmara da imperatriz Teresa - Frederico Knieps - resolveu que seu filho também fosse médico, mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes, com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps de que tanto se tem ocupado a imprensa. Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown, de que nasceram Marie e Oto. E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora que tinha no ventre um santo tatuado. A filha de Lily Braun - a tatuada no ventre quis entrar para um convento, mas Oto Frederico Knieps não atendeu, e Margarete continuou a dinastia do circo de que tanto se tem ocupado a imprensa. Então, Margarete tatuou o corpo sofrendo muito por amor de Deus, pois gravou em sua pele rósea a Via-Sacra do Senhor dos Passos. E nenhum tigre a ofendeu jamais; e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos, quando ela entrava nua pela jaula adentro, chorava como um recém-nascido. Seu esposo - o trapezista Ludwig - nunca mais a pôde amar, pois as gravuras sagradas afastavam a pele dela o desejo dele. Então, o boxeur Rudolf que era ateu e era homem fera derrubou Margarete e a violou. Quando acabou, o ateu se converteu, morreu. Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps. Mas o maior milagre são as suas virgindades em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado; são as suas levitações que a platéia pensa ser truque; é a sua pureza em que ninguém acredita; são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo; mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos. Marie e Helene se apresentam nuas, dançam no arame e deslocam de tal forma os membros que parece que os membros não são delas. A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos. Marie e Helene se repartem todas, se distribuem pelos homens cínicos, mas ninguém vê as almas que elas conservam puras. E quando atiram os membros para a visão dos homens, atiram a alma para a visão de Deus. Com a verdadeira história do grande circo Knieps muito pouco se tem ocupado a imprensa.
O POETA DIANTE DE DEUS
Senhor Jesus, o século está pobre. Onde é que vou buscar poesia? Devo despir-me de todos os mantos, os belos mantos que o mundo me deu. Devo despir o manto da poesia. Devo despir o manto mais puro. Senhor Jesus, o século está doente, o século está rico, o século está gordo. Devo despir-me do que é belo, devo despir-me da poesia, devo despir-me do manto mais puro que o tempo me deu, que a vida me dá. Quero leveza no vosso caminho. Até o que é belo me pesa nos ombros, até a poesia acima do mundo, acima do tempo, acima da vida, me esmaga na terra, me prende nas coisas. Eu quero uma voz mais forte que o poema, mais forte que o inferno, mais dura que a morte : eu quero uma força mais perto de Vós. Eu quero despir-me da voz e dos olhos, dos outros sentidos, das outras prisões, não posso Senhor : o tempo está doente. Os gritos da terra, dos homens sofrendo me prendem, me puxam me daí Vossa mão. (...) A eterna presença acusou o homem pecador: -Disseste falsidade. A tua língua mentiu. O pecador disse que não disse tal. -Blasfemaste. Disseste o meu nome em vão. O homem disse que não disse tal. -Disseste calúnias que apodrecem a terra, cismas, revoltas, credos, tudo mal. E o pobre disse que não disse tal. Mas a suprema presença vendo O homem a tremer se retratando: -O Pensamento que te dei era muito diferente da voz gritando tanta coisa ruim. Vem.
TARDE OCULTA NO TEMPO
Andarilho sem destino reparou então que seus sapatos tinham a poeira diferente de todas as pátrias pitorescas; e que seus olhos conservavam as noites e os dias dos climas mais vários do universo; e que suas mãos se agitaram em adeuses a milhares de cais sem saudades e amigos; e que todo o seu corpo tinha conhecido as mil mulheres que Salomão deixou. E o andarilho sem destino viu que não conhecia a Tarde que está oculta no tempo sem paisagens terrenas, sem turismos, sem povos, mas com a vastidão infinita onde os horizontes são as nuvens que fogem.
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