abrange trinta anos de
história de um grupo de jovens angolanos, que se confunde com um período da
própria história de Angola.
A ação dos
protagonistas de A Geração da Utopia se desenvolve em quatro capítulos,
iniciando-se por “A Casa (1961)”, tendo seqüência em “A Chana (1972)”, “O
Polvo (1982)”, finalizando com “O Templo (a partir de junho de 1991)”. Cada um
deles se encerra com um epílogo.
A casa referida no
título do primeiro capítulo, não é outra senão a Casa dos Estudantes do Império,
pomposo nome do lugar em Lisboa, para onde convergiam os jovens africanos que,
pela ausência de Universidades em seus países de origem – as colônias
portuguesas na África – dirigiam-se para Lisboa, financiados (muitas vezes com
maiores ou menores sacrifícios) pela família, Igreja ou alguma Instituição, a
fim de cursarem uma Faculdade.
Ironicamente, o
estado Salazarista subsidiava esse espaço, cuja cantina se tornou o ponto de
encontro dos jovens estudantes africanos, sem inicialmente desconfiar que ali se
gestava a queda dos últimos bastiões do Império português.
Na Casa reuniam-se
angolanos, moçambicanos, caboverdianos, sãotomenses e guineenses, que enquanto
expunham e debatiam suas produções intelectuais, aglutinavam-se também em torno
de ideais libertários nacionalistas, de cunho socialista. Por lá passaram muitos
jovens que, posteriormente, se consagraram por sua literatura – em prosa ou
verso – de resistência, politicamente engajada, inclusive o próprio
Pepetela, que tinha ido para Lisboa a fim de estudar engenharia.
Ele, no entanto, por
ter mais afinidade com a área de humanidades, acabou se matriculando no curso de
história por ser, dentre os que existiam, o que mais se aproximava do que
realmente desejava: Sociologia.
Quando chegou em
Lisboa, em 1958, já tinha uma boa formação política e sua adesão à Casa dos
Estudantes do Império foi apenas uma conseqüência desse fator.
Foi nesse espaço -
mal visto pelas famílias da colônia e da metrópole – de efervescência cultural e
política que se encontraram ou reencontraram os jovens estudantes, entre eles
Costa Andrade, Ervedosa e Agostinho Neto. Assim, A Casa dos Estudantes do
Império não foi só o espaço onde floresceram grandes intelectuais, mas o que
também veio a fornecer os quadros das lideranças dos Partidos que propiciaram a
libertação das Colônias.
Aliada à militância
política desenvolveu-se uma fecunda criação literária. No caso específico de
Pepetela a afirmação contrária talvez seja mais exata e por sua vivência nesse
tempo e nesse espaço, pode-se inferir que esta obra tenha também forte cunho
autobiográfico.
A Geração da Utopia
aponta ainda para um fundo histórico, já observado em outras obras suas (Mayombe,
Yaka, A gloriosa Família): através da ficção, está a proposta de contar
alguns períodos da História, não como observador passivo, mas como alguém que
não só a vivenciou , como ajudou a construí-la. Ele faz parte dessa geração que,
ao tomar a História nas mãos, dela se fizeram sujeito e não mais objeto.
Sara, a estudante de
medicina, branca (isso fazia diferença), filha de um comerciante rico; Malongo
(namorado de Sara), jogador de futebol, farrista, mulherengo e politicamente
“alienado”; Vítor, estudante de Veterinária, companheiro de quarto de Malongo,
de quem seguia as pegadas, mas que gozava da confiança do grupo; Aníbal, formado
em Histórico-Filosóficas, líder, reconhecido em todos os tempos e espaços como
“O Sábio”; Elias, protestante, sério, radical, partidário da violência; o
“miúdo” Laurindo; o literato impertinente Horácio, são algumas
das personagens que
circulam pela Casa e com cuja trajetória o autor vai se preocupar.
São fictícias, mas
que a exemplo de outras referidas em várias obras de Pepetela, refletem ou
aglutinam características de outras, reais, (inclusive do próprio autor) que
conviveram no mesmo ambiente, no mesmo período.
Se uns estudavam,
outros nem tanto. O futebol, a música, a farra, a política, absorviam grande
parte do tempo dos estudantes e, ao apontar para esse lado mais humano das
personagens, retira-as do campo idealizado, revelando as metamorfoses e
contradições presentes em qualquer jovem que viveu naquela época, em situações
similares.
Entretanto, fora
desse circuito, estava-se formando o MPLA, cujo programa surgia como uma opção
para substituir a UPA e a adesão das lideranças foi decisiva para o quadro que
se delineou a seguir.
A Casa dos
estudantes, vista pela comunidade como um antro de comunistas, passou a se alvo
atento da PIDE. Enfim, já não havia segurança em Lisboa para os nacionalistas.
No país mais próximo, a Espanha, tampouco, com a ditadura de Franco. No entanto,
a França acenava como a grande e mais próxima visão de liberdade.
Aníbal, que apesar de
sua militância política, prestava serviço militar obrigatório no exército
português, foi o primeiro a partir. Sua recusa em participar da guerra colonial,
não lhe deixou outra opção que não a de desertar, mantendo a coerência entre seu
discurso e a prática. O grupo seguiu depois. Sara, já formada, esperando um
filho de Malongo.
Os homens se
engajaram na guerrilha e se ela, em tese, poderia uni-los servindo de eixo para
um ideal comum, na prática contribuiu para distanciá-los. As privações e os
perigos por que passaram, revelaram a verdadeira face de cada um.
E a visão nem sempre
foi boa. É o que se nos depara em A Chana, um dos palcos da luta armada
na Frente Leste. Cenário pouco adequado para tal atividade, “apenas um terreno
sem árvores que é preciso atravessar para chegar à floresta ansiada?” Não seria
ela própria a metáfora do lugar onde todos podem ver e ser vistos, em oposição à
floresta, mais propícia à camuflagem? A Chana foi o espaço da metamorfose
de Vítor.
Ele, que na guerrilha
adotou o codinome Mundial, traiu seu próprio nome de guerra. Se
“mundiais” podiam ser os valores consagrados pelo grupo, no entanto, a inversão
de valores é já apontada na década seguinte a sua saída de Lisboa, quando
reaparece na guerrilha, na Frente Leste, individualista e egocêntrico,
características
que o acompanharão,
assim como o seu nome de guerra, até o fim da narrativa, estando ele no posto de
presidente da república angolana.
O Polvo, ao
contrário dos outros capítulos, situa-se em um tempo breve, introspectivo,
reflexivo e datado: abril de 1982. Pressentido por Vítor, como morto, no epílogo
de A Chana, Aníbal reaparece numa praia nos confins de Angola.
Sobrevive graças a
uma escassa pensão do exército (sua única concessão) e da caça marítima, que faz
questão de diferenciar da pesca: esta é uma atitude passiva, enquanto aquela
envolve “um corpo a corpo, usa uma arma contra um adversário que vê e respeita”.
Muito típico do Sábio, embora o resultado final de ambas seja o mesmo – o peixe
na panela.
Este é um capítulo de
reencontros: o do homem consigo mesmo, o do homem com um pesadelo do passado –
emblematizado na figura do polvo – quando faz um mergulho literal para matá-lo e
o do homem com a mulher. O reencontro com Sara marca a consumação de um amor
platônico, sublimado anteriormente em função de outro, se não maior, mais
urgente: aquele que, exercitado na guerrilha, traduzia o amor pelo seu país.
As personagens,
seguidas em percursos quase isolados, cruzam-se novamente no último capítulo:
O Templo. O título é uma alusão à Igreja da Esperança e Alegria do Dominus,
liderada por Elias. A tônica desta última parte do romance é o desencanto
Embora as
contradições do regime já estivessem apontadas, metaforicamente, desde o início,
através da relação entre a militante Sara com o apolítico Malongo, Vítor
(principalmente), Malongo e Elias apresentam-se como a síntese de todas elas,
principalmente no que concerne à corrupção que assolou Angola após sua
independência.
Dos antigos sonhos
pouco restou. Alguns morreram por ele. Os que escaparam, viram-no morrer. Sara,
apesar de tudo, continua militando. Aníbal é o único que ainda acredita. Não no
sistema, mas no ser humano que pode modificá-lo.
Se a utopia, como
topônimo, é o lugar da felicidade ou que não existe, para esta geração ele
existiu e teve um endereço: A Casa dos Estudantes do Império. E se ela cumpriu
sua trajetória e nada mais tem a dizer, não significa, entretanto, que o sonho
tenha acabado. Outras poderão vir e retomá-lo, basta que um comece.
Isso é vislumbrado em
Judite, a filha de Marta, e em seu namorado, Orlando. “Portanto, só os ciclos
eram eternos”.
O lapso de tempo
ocorrido entre a elaboração desta obra e o seu lançamento aqui no Brasil atestam
que ela continua atual em todos os lugares em que alguém sonhe e acredite que
através dele, possa mudar o mundo para melhor.
“Mais desejo que
espero”.
(Fonte: http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via04/via04_22.pdf)
Um breve olhar sobre a
representação da mulher em A geração da utopia, de Pepetela
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Profa. Dra. Shirley
de Souza Gomes Carreira
Professora de Literatura Comparada da UNIGRANRIO
http://www.shirleycarreira.homestead.com/index.html
mitchell@centroin.com.br
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Texto
apresentado no Congresso Internacional de Literaturas Africanas, em
outubro de 2003 na Universidade de Coimbra
O romance A geração da utopia [i], de Pepetela, tem sido amplamente
analisado sob o ponto de vista da sua representatividade em relação
à literatura que surge do entrelaçamento da história oficial e da
ficção.
Ao reconstruir no universo ficcional a gênese do movimento de
libertação e o desenrolar da Guerra Colonial em Angola, Pepetela
concede-nos o olhar da testemunha e, ao mesmo tempo, insere o seu
romance em uma fase da literatura angolana que tem sido denominada
“de resistência”, enfatizando uma temática de guerrilha.
A geração da utopia registra a participação feminina no movimento de
luta pela independência de Angola. Ao fazê-lo, traça perfis
distintos de mulher, que operam no universo ficcional de modo a
concretizar simbolicamente, em seu relacionamento com as personagens
masculinas, o ideal revolucionário, a África mítica, a adoção da
ótica do dominador e a falência da utopia.
Esta comunicação propõe uma breve análise desses perfis femininos e
o modo pelo qual concorrem para instaurar o discurso de perplexidade
e desencanto que caracteriza o romance.
Mas quem são essas mulheres?
Sara nos é apresentada no primeiro capítulo como uma Angolana
branca, “e portanto considerada à partida uma boa portuguesa”. No
entanto, fica claro, desde o princípio, que, apesar de ser filha de
comerciante rico e receber uma mesada abastada, Sara interpreta a
sua estada em Lisboa como um exílio, o que torna inevitável a
percepção da sua diferença cultural em relação aos portugueses.
Ao vir para Portugal, a fim de estudar medicina, padeceu da
nostalgia típica dos exilados, sofrendo com a distância, que, em
suas próprias palavras, “emprestava às coisas o tom patinado da
perfeição” (AGU, 11). É sobre esse tom que se constrói a utopia,
apoiada no mito do eterno retorno.
Sara e seus compatriotas têm uma relação mítica com a terra
longínqua, como se ela fosse um paraíso a ser recuperado, como se
fosse o ventre materno, ao qual gostariam de recolher-se novamente.
Ao envolver-se com os estudantes da Casa dos Estudantes do Império,
berço dos movimentos revolucionários que visavam à libertação das
colônias portuguesas, Sara emblematiza o ideal de liberdade que o
romance enuncia, ao descrevê-la de braços abertos, em ânsia de voar:
Era um dia particularmente luminoso e quente para um abril lisboeta.
Na véspera tinha chovido toda a noite, o que era próprio da estação,
mas hoje o Sol nascera num céu tão azul que até dois não poder voar.
Sara abriu os braços descobertos. Inútil, não nascera pássaro. (AGU,
9 )
O narrador se serve do olhar de Sara para trazer à baila as divisões
existentes entre os estudantes oriundos das colônias; a tendência de
brancos agruparem-se com brancos, tornando evidente que a questão
racial se sobrepunha à origem geográfica, e que, mesmo entre os
colonizados, havia uma forte tendência à segregação:
As mesas estavam todas ocupadas, aos grupos de quatro. A maioria era
de angolanos, todos misturados, brancos, negros e mulatos, estes bem
mais numerosos. Os caboverdianos, que se misturavam facilmente com
os angolanos, eram quase exclusivamente mulatos. Os guineenses e
são-tomenses, mais raros, eram negros. Os moçambicanos eram na quase
exclusividade brancos. E tinham tendência de se juntar aos grupos.
Mesa unicamente ocupada por brancos, já se sabia, era de
moçambicanos. A british colony, como diziam ironicamente os
angolanos. Claro que havia excepções, como aquela mesa em que
Belmiro chegou atrasado e o único lugar vago era naquela mesa. Se
pudesse escolher, ia para outra, até porque a conversa certamente
estava mais emperrada que normalmente. Os angolanos tinham menos
desses problemas, apesar dos últimos acontecimentos. No entanto, ela
sentia, havia muito subtilmente uma barreira que começava a
desenhar-se, algo ainda indefinido afastando as pessoas, tendendo a
empurrar alguns brancos angolanos para os grupos moçambicanos. A
raça iria contar mais que a origem geográfica? (AGU, 18)
O romance aborda pela ótica feminina uma questão que faz parte da
história dos povos ex-colonizados: o risco de um nacionalismo
exacerbado, que provoca uma espécie de cegueira social e que
fatalmente leva não só a exclusões injustas, bem como a uma espécie
de auto-exílio, que impede que se aprenda algo com o progresso de
outros povos e culturas.
Divididos entre uma postura antiimperialista e uma possível evolução
decorrente do hibridismo cultural, o colonizado tende muitas vezes a
uma posição radical, que dá início a um processo discriminatório
quase tão intenso quanto aquele do qual tem sido vítima.
Essa postura, que, segundo Fanon[ii], é a violência dos oprimidos
decorrente dos traumas causados pela violência dos opressores, foi,
em parte, responsável pela postura adotada pelo MPLA, o partido
vencedor, no sentido de privilegiar a noção de “angolanidade”, ainda
que para isso tivesse de ignorar discordâncias que estão
internalizadas na memória coletiva dos diversos grupos étnicos e
culturais de Angola.
Sara assume sua posição pró-independência, embora sinta que é vista
com desconfiança pelos próprios compatriotas pelo fato de ser
branca.
Ainda no primeiro capítulo, é visível a incompatibilidade entre Sara
e Malongo, na mesma proporção em que se torna evidente a afinidade
com Aníbal.
Ao acolher Aníbal, quando este deserta, Sara compartilha o seu
idealismo e pensa, inclusive, que se viesse a fazer amor com ele
seria por motivo diferente daquele que a fazia entregar-se a Malongo.
Com Aníbal, seria fundir-se em uma comunhão simbólica, que vinha do
misticismo das origens. Sara e Aníbal compartilham alguns traços de
personalidade, além do sonho comum de liberdade: ambos são
reconhecidamente inteligentes, capazes e conscientes de seu papel na
formação da nação angolana.
É Sara que, em uma conversa com Laurindo, enuncia o conceito de
utopia que remete ao título do romance: um casamento harmonioso
entre o nacionalismo e o internacionalismo. Cabe também a ela
questionar se essa utopia é realizável:
– Um casamento entre nacionalismo e internacionalismo, é isso?
– Definiste muito bem. Um casamento harmonioso entre dois contrários
antagônicos.
– Mas isso é linguagem marxista.
– Pois é. Resta a saber se essa utopia se pode realizar. Alguns
dizem que já a realizaram, com o comunismo.
( AGU, 92)
A exclusão que sofre, ao passar anos em Paris à espera de uma
convocação para engajar-se na luta, anuncia a falência da utopia.
Não há espaço para ela nessa guerra, porque os que a vivem, como
Aníbal, percebem a sua deterioração e, conseqüentemente, a
inutilidade de convocar uma mulher, que além de tudo tem uma filha,
para uma luta cujos ideais já se corromperam.
A utopia girava em torno de uma “comunidade imaginada”, um discurso
possível, segundo a definição que Benedict Anderson[iii] atribui à
construção da identidade nacional. Nessa comunidade, estariam
contidos os traços que constroem a identidade: a memória, os mitos,
o desejo de união, o idioma, a etnia. A identidade nacional seria,
portanto, definida pelo estranhamento em relação a outras
comunidades, pela diferença.
A tão sonhada independência não foi capaz de tornar real o ideal dos
revolucionários. À excitação inicial seguiram-se os partidarismos e
as divisões e a decepção de Aníbal ao final do romance, o seu
auto-exílio, não significa o repúdio ao nacionalismo, mas à
constatação do fracasso dos novos governantes e dos modelos de
Estado-Nação que foram construídos.
Assim como Sara encarna o ideal revolucionário, Fernanda antecipa
simbolicamente a sujeição de Vítor aos apelos do capitalismo e do
poder. A bela mulata pela qual ele se apaixona é o emblema da adoção
da ótica do dominador. Em meio à conversa que tem com Vítor em seu
primeiro encontro, Fernanda deixa bem claro que viera a Lisboa por
conta dos estudos e que não tem o menor interesse em política,
demonstrando de imediato que já fora devidamente catequizada pela
família a fim de precaver-se contra a influência dos
revolucionários.
É a curiosidade que a leva à Casa dos Estudantes do Império e ao
namoro com Vítor. Quando este a convida a partir com ele, ela
recusa, optando pela segurança do sistema estabelecido.
A fragilidade e a insegurança de Vítor é introduzida simbolicamente
no romance por meio de sua falta de sorte com as mulheres. Anos mais
tarde, ele é acusado por Aníbal pelo seu oportunismo e por enviar um
camarada para uma missão fatal a fim de ficar com sua mulher. O
Sábio já havia pressentido nele os sinais da mudança.
A sua rápida ascensão política é fruto do engodo, da corrupção e de
negócios fraudulentos. Ao fim do romance, Vítor está completamente
seduzido pelo poder e pela ambição, tendo se distanciado por
completo das convicções políticas da juventude. Tal mudança é
expressa também por meio da mulher com a qual decide se casar, após
abandonar esposa e filhos. Luzia idolatra o padrão de vida e
comportamento europeu e essa idolatria se revela na sua tentativa de
imitar o sotaque lisboeta e no seu exagero ao vestir-se.
Marta, a amiga de Sara, que ajuda a esconder Aníbal até a sua fuga
para Paris, tem uma breve, mas significante, participação no
romance, pois preconiza a falência da utopia, quando diz a Sara que
se Aníbal não morrer, com certeza há de desiludir-se. Anos mais
tarde, é o próprio Aníbal que confessa: “Eu morri e desencantei-me”
(AGU, 240). A morte simbólica do herói recupera os mitos de morte e
ressurreição. Clyde Ford[iv] afirma que “a sabedoria mítica africana
sustenta que a vida humana corresponde a um ciclo infindável da
natureza”.
Em A geração da utopia, Pepetela caracteriza as diversas posturas de
seus compatriotas quanto ao ideal nacionalista, sem, no entanto,
deixar de urdir uma tessitura do discurso histórico com o discurso
mítico.
Mussole é a personagem feminina que representa a África mítica.
Segundo as palavras do narrador, ela é “o tumulto profundo que se
deixa adivinhar nas águas paradas, é a vida borbulhante na chana”
(AGU, 115).
O primeiro contato entre Aníbal e Mussole ocorre durante a
xinjanguila, uma dança típica, que, por sua vez tem uma conotação
importante no desenvolvimento do romance. Aníbal usa os passos da
dança para explicar simbolicamente a Mundial a necessidade de união
e justaposição de forças coletivas como elemento imprescindível ao
sucesso do combate e da reorganização político-social pós-conflito.
Durante a dança, Aníbal percebe em Mussole uma força interior,
selvagem, que parece interagir com a natureza. Essa percepção se
concretiza no ato sexual, na descrição do seu orgasmo múltiplo,
profundo, telúrico.
A violação, a morte e o esquartejamento de Mussole são, por sua vez,
metáforas da corrupção do idealismo revolucionário, que visava à
construção de uma unidade nacional, bem como simbolizam os
partidarismos que deram origem à guerra civil.
Quando Aníbal opta pelo auto-exílio na Caotinha, planta e rega uma
mangueira na qual acredita que o espírito de Mussole habita.
Inconscientemente, planta e rega o que resta da sua crença, dos seus
ideais:
– Alguma morte tem sentido, Mussole? E estás mesmo a ouvir-me? Senti
no dia que te dei nome e te plantei, as tuas folhas começaram a
agitar-se em música. O espírito longínquo da falecida no Leste
encontrou o caminho para aqui. Longa distância, mesmo para um
espírito. Tão cansado ficou que nem fala, nem se manifesta. Creces,
creces, com o espírito em cima. Frutos não dás, bem sei que ainda
não chegou o tempo. Mas podias de vez em quando xuaxualhar as
folhas, quando não há vento, para me indicar que estás aí e não
dormes.
( AGU, 235)
O romance associa a questão da utopia a uma dimensão subjetiva da
terra, onde estão entrelaçadas as vivências e as experiências
humanas com o espaço. O processo de construção imagética de uma
sociedade tem suas raízes nos símbolos evocados, que se encontram
fixados no inconsciente coletivo.
Para Jung [v] “o símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que
nos pode ser familiar na vida diária embora possua conotações
especiais além do seu significado evidente e condicional”.
A conexão simbólica da mulher com a terra é uma constante na ficção
e na poesia africanas. Clyde Ford [vi], em O herói com rosto
africano, afirma que a Deusa mítica na África, a Grande Mãe da
Criação, revela-se em três símbolos amplos de sua procedência e
poder: a árvore, a terra e a pedra.
Quando o indivíduo passa para a terra de Kalunga, a terra dos
mortos, a sua kilembe, a Árvore da Vida, o representa no mundo
iluminado da face da terra. A árvore é, portanto, uma representação
do centro psicológico dos seres: as raízes coincidem com as
profundezas do inconsciente humano, o tronco representa o reino
intermediário da terra, o campo da consciência desperta, e as folhas
são o domínio enaltecido do espírito humano.
Essas imagens são associadas à figura do herói na mitologia africana
e Pepetela as recupera e reelabora simbolicamente ao contar a saga
de Aníbal, do seu ideal revolucionário, conferindo a Mussole o elo
com a terra, com o princípio feminino que permeia a sociedade e a
natureza na África.
Ao reencontrar-se com Sara ao final do romance, dando vazão ao
desejo por tantos anos acalentado, Aníbal observa que a mangueira se
agita, em sinal de aprovação, como se fosse a bênção da Mãe Terra.
Ao interpelar a história por meio da ficção, Pepetela desvela o
lugar do imaginário, na confluência entre o sonho e a realidade,
entre o visível e o invisível, entre o idealismo e a concretização.
Mussole é objetivamente associada à chana no que ela tem de mais
recôndito, na sua essência. Após a morte da personagem, esse
simbolismo é transferido para a árvore, onde Aníbal crê que seu
espírito habita.
A terra, em essência, representa mais que um espaço de morada; é, na
verdade, um registro simbólico. Como base para as representações
imagéticas, a terra se constitui também em um componente do
imaginário social, pois, embora fruto de atributos humanos, a
capacidade imaginativa se alimenta também de atributos espaciais,
estando ambos, portanto, indissociáveis.
Com essas relações simbólicas, o autor parece querer lembrar ao
leitor que o espírito de unidade, que um dia foi a força motriz da
luta pela independência, continua a pairar, invisível, como o
espírito de Mussole, sobre a terra angolana, à espera de que o ciclo
vital da natureza, das mutações constantes, se cumpra e o traga de
volta à vida. Esse simbolismo parece encontrar eco nas últimas
palavras do romance, quando o narrador afirma que não pode haver
ponto final numa história que começa por “portanto”. Essa afirmação
contém a esperança discursiva de que o desencantamento possa vir a
ser superado, porque conforme o que se lê na primeira linha do
romance, só os ciclos são eternos. |
| (Fonte:http://www.unigranrio.br/unidades_acad/ihm/graduacao/letras/revista/numero10/textoshirley8.html) |
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