ORFEU SPAM APOSTILAS
PEPETELA - PREDADORES
Fábula ácida lançada em Portugal descreve, em tom de farsa, os valores dos
novos-ricos do país africano
Pepetela alfineta a nova elite de Angola
Macarena Lobos - 3.dez.2003/Folha Imagem![]() |
O escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela, que lança "Predadores" |
DENISE MOTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Faz 30 anos que Angola atingiu a independência. Os frutos sociais dessa
acidentada caminhada para a autodeterminação -o país saiu da égide portuguesa e
passou para as mãos do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) não
sem poucos embates com a Unita (União Nacional para a Independência Total de
Angola), numa guerra civil que deixou cerca de 2 milhões de mortos- servem de
mote para "Predadores", novo livro do angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos
Santos, o Pepetela, vencedor do Prêmio Camões em 1997.
Em tom de farsa, com o deboche em alta e o pensamento sempre irônico e fluido
que o caracteriza, o autor desenha uma república cuja elite política, econômica
e intelectual está infestada de gente preocupada com algo em nada referente à
"libertação de Angola", menos ainda dos angolanos.
Ainda sem previsão de lançamento no Brasil, "Predadores" acompanha as
empreitadas de um "cidadão exemplar" de Angola, como qualifica logo de início
Pepetela. Vladimiro Caposso, protagonista do romance, é um homem que, nascido
pobre e inexpressivo politicamente, se provará um ás do tráfico de influência
quando os portugueses fogem desesperados às vésperas de um poder africano
assumir o comando do país.
Camaleônico, em um momento em que para a maioria havia insegurança, pobreza e
ruínas, aí é justamente quando Caposso começa a se reinventar. Muda de história,
de amigos, altera o nome, arranja uma religião, entende "a psicologia do
momento", segundo explica o autor, e constrói um patrimônio milionário.
Ao seu redor, com ele, acima dele ou sob suas ordens, dentro de seus pensamentos
e a manobrar suas jogadas, habitam seres que visam o máximo lucro e o mínimo
esforço, os predadores de Pepetela. "Quem detém o poder financeiro vem de várias
origens. Caposso arrancou para a fortuna através das suas atividades no partido
dominante, que lhe permitiram os primeiros meios de enriquecimento. Foi
"político" quando lhe convinha", diz o autor de 64 anos.
Apesar de lançado num momento em que o país caminha para um novo pleito, assunto
sobre o qual Pepetela demonstra ceticismo ("Parece-me que setembro de 2007 é a
data ideal para o partido no poder apresentar realizações importantes e ganhar
mais uma vez as eleições"), o autor afasta a percepção de que seu livro tenha
como objetivo criticar o estado de coisas em um país há três décadas sob
controle da mesma agrupação política.
"Caposso é um personagem que de fato tem algumas características de um setor da
nova burguesia, os emergentes. Mas não pretende ser o retrato da alta sociedade
atual."
No entanto, apesar do tom bem-humorado que imprime ao livro, o escritor -ele
mesmo um ex-guerrilheiro a serviço do "partido no poder" e que foi nomeado
vice-ministro de Educação em 1976, posição que deixaria em 1982- não esconde, ao
longo da narrativa, seu desapontamento.
Quando Caposso promove uma elegante reunião com autoridades governamentais em
sua fazenda, por exemplo, escreve: "(...) Todos riram. A regra do novo regime
era essa (...), ninguém gastava dinheiro inutilmente com a coletividade. O
dinheiro só servia para produzir mais dinheiro ou para esbanjar em ações de
prestígio".
O autor também descarta que sua ficção embuta apontamentos sociológicos, mas
mergulha nas preocupações, transformações e hábitos de famílias à margem do
"novo mundo" em andamento.
Antagonista moral de Caposso, o garoto Nacib -nome recebido como homenagem dos
pais ao personagem de "Gabriela", a primeira telenovela exibida em Angola, em
1977-, criado sem leite, acostumado a almoçar apenas "arroz e um pouco de peixe
frito, o prato mais barato do mercado" -como anota Pepetela-, contraria a
estatística e se torna engenheiro. Contraria a "psicologia do momento" e não se
afasta dos parentes, que continuam a viver num bairro miserável.
Com o cruzamento dessas realidades, o autor monta uma fábula ácida e sem moral
ao fim, exposição de uma cadeia alimentar impulsionada por poder e prestígio na
qual nenhuma espécie termina por sobreviver impunemente.
"Não faço a mínima idéia de o que os angolanos aprenderam [ao longo dos últimos
30 anos]. Mas parece-me que há uma certeza muito grande: guerra nunca mais."
Predadores
Autor: Pepetela
Editora: Dom Quixote (Portugal)
Quanto: 17, em média (383 págs.)
(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0603200621.htm)