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Terêncio - Publio Terêncio Afer (185a.C.? - 159a.C)
Terêncio nasceu na África, provavelmente no ano de 185a.C. Foi vendido como escravo ao senador Terêncio Lucano, que lhe deu educação e, algum tempo depois, a alforria. Por ser muito amigo de Cipão, muitos atribuíram a esse último a autoria de várias comédias de Terêncio.
Composta por seis comédias, toda a obra de Terêncio resistiu a ação do tempo e chegou até nos. São elas: Andria, Hécira (sogra em grego), Heautontimoroumenos (o que se pune a si próprio - em grego), O Eunuco, Formião, Os Adelfos (os irmãos)
Os personagens das comédias Terêncio pertencem, muitas vezes, a classes sociais mais altas. As suas obras são escritas em verso e seu estilo é "puro". Apesar disso, ele hoje é considerado um autor menor que seu contemporâneo Plauto.
A MÃO DE SATURNO
INTRODUÇÃO À LEITURA DE TERÊNCIO
1. A VIDA
«Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.» Quem sabe? Acaso o predestinasse, também, a má estrela que Pessoa elegeu
para Gomes Leal: «Este, poeta, Apolo em seu regaço / a Saturno entregou. A plúmbea mão / lhe ergueu ao alto o aflito
coração / e, erguido, o apertou, sangrando, lasso.» Fruiu decerto horas de enlevo, horas de esperança. Todos as vivemos.
Correram, afinal, para o lago de breu—e por lá se abismaram.
Como lhe chamariam, à nascença, em Cartago? Inútil inquirilo. Os
tria nomina que lhe ficaram — Publius TerentiusAfer
— são obviamente de imposição romana. O cognome Afer parece indicar, no entanto, que Terêncio (o nome da gens prevaleceu)seria de procedência líbica, e não púnica: salvo se o patrono preferiu simplesmente encobrir uma origem de negra
memória para os Romanos. Sobretudo no final da segunda guerra, a mais tremenda, porque anibálica. De qualquer modo,
Terêncio é o primeiro escritor grande da literatura romana a nascer em África. Outros viriam. E assinalados.
A data do seu nascimento oscila entre 195 a. C. e 185 a. C.: a mais recente, autorizada pelo melhor códice da
Vita suetónio--donaciana (que lhe dá dezanove anos, quando da representação da sua primeira peça, a
Andria), coincide com a do nascimentode Cipião Emiliano, o futuro protector; mas muitos outros códices lhe atribuem, na altura, vinte e nove anos, uma
idade que levanta maiores dificuldades, embora não irremovíveis.
O escravo que foi — como Andronico, como decerto Cecílio — não perdurou muito tempo nessa condição: o seu senhor,
um senador vitorioso de nome Terêncio Lucano, mandou que lhe dessem esmerada educação e, a breve trecho, o libertou.
Com a motivação que o biógrafo assim enuncia, concisamente
ob ingenium et formam.E aqui se estreiam os amargores do liberto. Ninguém exclui, de entrada, o mérito da inteligência: as insinuações
malevolentes sobre a beleza hão-de surgir depois, quando o círculo dos Cipiões que o acolhera ganhou crescente notoriedade.
Estranhamente, o retrato da
Vita não privilegia muito os predicados físicos: Terêncio seria de estatura meã, compleiçãofranzina, colorido fosco da tez, condicente com a sua origem africana. Outra nobreza de feições evidencia, se verdadeiro, o
busto do museu Vaticano, que mostra a face grave e alongada de um homem mediterrânico, ainda jovem, mas de olhar ansioso
e testa lavrada de rugas insanáveis. Mais verosímil, ao cabo, será o medalhão de um códice que o representa
barbatulus,de oval amavioso, expectante na iluminação de um futuro melhor. A bissexualidade imperava (facto ressabido) na
sociedade helenizante em que Terêncio se movia: qualquer manifestação pública de benquerença seria malsinada pela presbitia
vesga dos tradicionalistas.
As suspeições sobre o
ingenium terão começado quando Terêncio representou a Andria, de algum modo favorecida porCecílio, e se afirmou solidamente a sua convivência com o círculo dos Cipiões. A ressonância deste grémio na literatura de
Roma antiga levou alguns historiadores a considerá-lo como uma espécie de academia ou cenáculo de estudiosos: na realidade,
constituiria apenas um ponto de encontro, mais ou menos estável, de sensibilidades empenhadas em abrir caminhos
mais largos à difusão da helenidade na Urbe. Ora o teatro oferecia uma forma eficaz de intervenção social: daí que a certos
representantes do círculo — entre os quais figuram nomes ilustres como Cipião Emiliano, Lélio-o-Sapiente, Fúrio Filão; mais
tarde, o satirista Lucílio — se atribua a autoria de comédias e tragédias. Como tais peças não aparecem com os seus nomes,
é fácil imaginar que, para encobrirem um hipotético desdouro, transferissem para outrem o risco de as apresentarem como
próprias. Por isso contam que, certa vez — justificação de tardança à mesa —, Lélio teria invocado um fluxo de inspiração,
e recitado, como prova, alguns versos do
Heautontimorumenos…Dado que Terêncio não podia defender-se cabalmente da acusação (envolvia agora um
rumor lisonjeiro para os nobres do círculo),a balela ganhou espessura e amargurou duramente os últimos anos, que poucos foram, da vida do poeta. Ora Terêncio
era convivente do círculo, porta-voz das suas ideias, não testa-de-ferro das comédias que realmente escrevera. Nenhuma
outra, para mais, foi representada, com o nome do poeta, após a sua morte.
Ao espaço de sete anos apenas (166-160 a. C.) se circunscreve a produção teatral de Terêncio, limitada também ao rol
de seis comédias. À parte alguma controvérsia, hoje mais ou menos silenciada, é possível — graças às didascálias e a um que
outro elemento adjuvante — indicá-las por ordem cronológica: de 166 a. C. seria a
Andria (A Moça que Veio de Andros); de165 a. C., a primeira versão da
Hecyra (A Sogra), interrompida pela chegada de uma companhia de pugilistas e funâmbulos;de 163 a. C., o
Heautontimorumenos (O Homem que Se Puniu a Si Mesmo); de 161 a. C., o Eunuchus (O Eunuco), seguido, no mesmoano, pelo
Phormio (Formião); de 160 a. C., por ocasião dos jogos fúnebres em honra de Lúcio Emílio Paulo, pai de Cipião Emiliano,os
Adelphoe (Os Dois Irmãos), a segunda tentativa de representação da Hecyra (retocada, mas de novo frustrada pela concorrênciade um espectáculo de gladiadores) e, enfim, a terceira realização da mesma comédia, desta vez acompanhada até final.
À força de repetida em todas as didascálias, fracas garantias oferece, quando referida a Terêncio, a indicação
placuit. Decerteza «agradou» o
Eunuchus, duas vezes representado no mesmo dia e que valeu ao poeta a remuneração (assaz elevada)de oito mil sestércios. Terão agradado também o
Phormio, de toada plautina, e porventura os Adelphoe, em que, com admirávelhabilidade, se contemperam cómico e reflexão. Mas que afirmar sobre o êxito da
Andria e do Heauton, mais apartadosdo chiste imediato? À primeira ainda sorriram a novidade da estreia e o movimento álacre do enredo; a segunda era introspectiva
de mais para quem se habituara à
festiuitas de Plauto.
Fonte: http://www.incm.pt/site/anexos/10126720080625111705209.pdf